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[RESENHA #267] Caminhos da mística, org. Faustino Teixeira

quinta-feira, agosto 02, 2018

/ by Mariana Belize


CAMINHOS DA MÍSTICA, org. Faustino Teixeira. São Paulo, SP: Editora Paulinas, 2012, 294 p.// R$ 29,50

“Onde o conflito de epistemologias é sinal de beleza. Mistério. E desafio.” — Marco Lucchesi

Como forma de divulgar mais amplamente os resultados das reflexões que ocorrem nos seminários, o livro Caminhos da mística, com organização do professor Faustino Teixeira, é composto de treze artigos de pesquisadores que participam dos seminários de Juiz de Fora e apresentam um vasto panorama das discussões em muitos aspectos dos estudos sobre mística, não só a cristã.

Com seu tom sempre vindo dos subsolos, Luiz Felipe Pondé abre o livro com seu artigo sobre a misericórdia que sustenta “um mundo em chamas”. Marcus Reis Pinheiro nos trará a Mística em Plotino, tratando de temas como o silêncio, a impossibilidade do discurso, a parousia e o mistério do encontro entre a alma e o Uno. Daí, teremos a Unio Mystica a partir do texto de Attar, visitado por Carlos Frederico Barboza de Sousa, professor da PUC Minas. A obra de Attar, “a linguagem dos pássaros” é mote para analisar as “fases” pelas quais a alma passa até seu encontro e até manter-se na Unidade: após a aniquilação de seu Ego, a possibilidade de manter-se na Unidade. “É a vivência da mariposa que ‘atirou-se violentamente contra a chama da vela’.”
Já a psicóloga clínica e mestre e doutora em Ciências da Religião na UFJF, Maria José Caldeira do Amaral, em seu artigo “Minne: o âmago visceral de Deus em Mechthild von Magdeburg”, explica aos leitores a trajetória das beguinas, “mulheres que possuíam um modelo de vida diferente da maioria das mulheres da mesma época: não casavam, não seguiam a vida religiosa tradicional, abandonavam o lar de origem e escolhiam o modelo apostólico de devoção, caridade e castidade, mas viviam fora das ordens religiosas oficiais.” A partir da apresentação do conceito de amor em Metchild von Magdeburg, Maria José nos dirá que “o problema do conhecimento, aqui, estará delimitado a um contexto substanciado pelo conhecimento de Deus, no formato de uma experiência única, íntima e suspensa na mais alta profundidade amorosa.” Sendo assim, ela discorre sobre as ideias de Metchild a partir da palavra Minne e seus desdobramentos dentro da mística.
Ceci Baptista Mariani, professora de teologia na PUC de Campinas, apresenta ao leitor a figura de Marguerite Porete, teóloga do século XIII. Na sua obra “Le Miroir des simples âmes”, Marguerite “combina instrução religiosa e romance cortês” e tem como tema “o caminho da alma que, pela via do aniquilamento, conhece a Deus. Na sua obra, tem “a ousadia de afirmar que o Espírito Santo é Cortesia.”
Teremos ainda Eckhart debruçando-se sobre a figura de Marta, no artigo de Adriana Andrade de Souza, doutoranda em Ciência da Religião pela UFJF e Maria Clara Bingemer, professora associada do Departamento de Teologia da PUC-Rio, num artigo sobre Simone Weil como mulher que desafiou sua época através de sua mística e seu “engajamento radical a serviço dos outros, dentro ou fora de qualquer instituição”.
Faustino Teixeira, professor do programa de pós-graduação em Ciências da Religião na UFJF, parte da obra de Teilhard de Chardin para falar sobre a diafania de Deus no universo bem como Alexandre Leone, doutor em Cultura Judaica pela FFLCH-USP, traz a mística judaica refletida na obra de Heschel, que “durante os anos em que exerceu o cargo de professor do Departamento de Filosofia Judaica do Jewish Theological Seminary, em Nova York, de 1943 a 1972,(…)” lecionou um curso intitulado Mística e Ética. Também neste artigo, teremos a apresentação da experiência religiosa hassídica, a partir dos estudos de Heschel.
De Sibélius Cefas Pereira, professor na PUC de Minas, leremos Thomas Mertone a questão do “trabalho de cela”: vida solitária e silenciosa, os sentidos da solidão, as práticas ascéticas dos eremitas.
Mariana Ianelli, poeta e mestre em Literatura e Crítica Literária, analisa a obra de Vittoria Guerrini, que “assume para si a vocação de um nome santo, com o qual assina seus poemas e ensaios: Cristina Campo, a portadora de Cristo nos campos do III Reich.” Cristina “dedicou-se à salvaguarda do símbolo, aproximando poesia e liturgia pela virtude da atenção.” - a defesa de uma “tarefa poética” que ressucite a “imagem pela imagem”, “a reconquista de um espaço de silêncio em consonância com um silêncio interior, a ressantificação do tempo, em sua solenidade litúrgica, para uma ressimbolização do mundo.”
Em “Mística, heresia e metafísica”, o pesquisador e doutor em Filosofia pela Unicamp, José Carlos Michelazzo, procura reunir três acontecimentos de nossa tradição ocidental: mística, heresia e metafísica. Desses motes, dividirá seu artigo em partes, uma estratégia didática e articulada que dará ao leitor uma estrutura tanto para pesquisas posteriores, quanto para o leitor que não está tão familiarizado com estas questões. No artigo, teremos as relações entre Cristianismo e Filosofia, a apropriação da Filosofia pelo Cristianismo, além da parte II que, entre Mística e Filosofia, apresentará os opositores cristãos ao vínculo entre Cristianismo e Filosofia, a doutrina medieval da analogia e a noção de dupla transcendência em Meister Eckhart.
No último artigo, do professor Eduardo Losso, “Crítica e mística: poesia moderna e instantaneidade”, seremos apresentados ao conceito de mística por um viés diferente do que, até então, tínhamos lido. Principalmente se verificarmos que o artigo não apresenta um ponto de vista específico de um autor ou área, como a Ciência da Religião, por exemplo, mas nos demonstra que, se a palavra mística está descaracterizada é porque seu uso (e abuso) se tornou, segundo o professor, um modo de, impiedosamente, retirar dela seu aspecto mais sagrado, levando-a para áreas obscuras… transformando-a em mercadoria, ou pior, em vitrine para os fetiches do mercado. E não somente isso, mas “a maioria dos teóricos que praticam essa crítica (a desmistificação da religião) desconhece os estudos de mística e ignora a diferença básica entre místicas “primitivas” (das quais os antropólogos teriam muito a dizer em sua defesa) e místicas de grandes civilizações (são as que nos interessam: judaica, cristã, árabe, hindu, japonesa, etc.)” e “esquece que a mística ocidental tradicional, por conter um caráter subversivo em relação a ortodoxias, ainda que não deixe de fundamentar-se numa religião, contém o maior potencial emancipatório e crítico de sua época”.
A partir daí, o professor começa a discorrer sobre o papel do místico, estendendo sua tese até os poetas modernos e chegando ao que seria sua pedra de fundação no artigo e que se liga à ideia de Michel de Certeau: a mística é “realista, engajada […] Ela é crítica, então. Ela relativiza o êxtase ou os estigmas como um signo que se torna uma miragem caso se os fixe.”

O que fica para o leitor no final do livro é a sensação de que há muito a ser dito, lido e estudado, não apenas sobre a mística em si, seus percalços, mas principalmente sobre suas veredas.

“O real não está no início nem no fim, ele se mostra pra gente é no meio da travessia”.
Guimarães Rosa, Grande Sertão: veredas

Mariana Belize
Projeto Literário Olho de Belize

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