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[RESENHA #268] Pragmatismo das flores, de Airton Souza

Um diálogo entre efêmero e o eterno, conheça a escrita de Airton Souza

quinta-feira, agosto 02, 2018

/ by Vitor Lima
Foto: O diário de Juno


PRAGMATISMO DAS FLORES. SOUZA, Airton. Guaratinguetá, SP: 2017, 92p ISBN 978-85-5833-294-1 // R$36
 APRESENTAÇÃO
APRESENTAÇÃO

A poesia de “pragmatismo das flores” tece em sua construção a elaboração da dor do luto sentido por Airton Souza pela morte dos pais. A obra é dividida em três partes, sendo a primeira intitulada “oração ao pai”. Nesta parte a oração em questão, tende a elevar a afetividade entre pai e filho no campo de uma compreensão que só foi atingida pela elevação da aceitação das diferenças, que a morte vem trazer. Ou seja, se na vida houvera ressentimentos pela relação de pai e filho, nem sempre próximas, foi com a morte que o perdão tomou corpo, à medida que a distância física abre espaço para a saudade, tornando lúcido que o vínculo entre pai e filho transcende as barreiras das emoções humanas. Já na segunda parte do livro a divisão recebe o nome de “Reza a mãe”. Aqui Airton Souza nos revela sua apreciação pela fé de sua mãe, e gostaria mesmo de acender ao nível de compreensão de sua querida falecida. Para o autor, sua mãe em seu silêncio dizia coisas apenas pelo olhar, e ensinava a ele sua filosofia de carregar “no peito uma faca e rasgar figuras na reza”, tentando sacralizar os desgostos mundanos por meio da força transbordante da fé. No terceiro capítulo “Consumação” o autor intercala poesias à mãe e ao pai, e termina o livro a desabafar para sua mãe, que seu pai em meio ao peso das heranças do passado, enfraquecera-se no dom “cultivar jardins” de compreender e alimentar a filosofia do amor conhecida como “pragmatismo das flores”. 

RESENHA

Pragmatismo das flores é um livro de poesia escrito pelo autor paraense Airton Souza. Publicado originalmente no ano de 2017 através da Editora Penalux, a obra consagrou-se e conquistou diversos prêmios no meio literário, dentre estes, podendo citar: Prêmio Proex de Literatura, promovido pela Universidade Federal do Pará – UFPA, 5º Prêmio Cannon de Poesia, Prêmio LiteraCidade de Poesia 2013, Prêmio Dalcídio Jurandir de Literatura 2013, IV Prêmio Proex de Arte e Cultura, III Prêmio de Literatura da UFES, dentre outros diversos. A obra divide-se em três partes distintas, sendo elas “Oração ao pai”, “reza a mãe” e “consumação”, de forma tal, que, fosse adotado pelo autor em sua extrema necessidade a catalogação numérica dos poemas, causando a impressão de dias, horas e tempos. Fruto de uma homenagem póstuma aos pais, o autor traz consigo em sua escrita uma carga emocional e afetiva extremamente transcendente.

ao meu pai Raimundo Gonçalves;
a minha mãe Maria Barbosa;
ambos que morreram quando ainda era inverno
 sem deixar as lições de saudades
e todas as metafisicas que nos consomem;

Observar um acontecimento sobre uma ótica precisa é uma tarefa extremamente complexa, isso porque os indivíduos envolvidos na descrição do ocorrido possuem visões de mundo diferentes, e podemos iniciar dizendo que este livro é exatamente isso: difícil de ser descrito. A primeira parte da obra, “Oração ao pai”, se inicia com as seguintes linhas: está escuro aqui, pai / e esse distante olhar / é o que invernece essa dor / do que aos poucos / é só miragem / jogado no chão dessa aparente / geografia / sem pertencer a nenhum de nós. Nossos pais são sempre responsáveis por nos ajudar guiando nosso caminho, porém, há um momento em que tudo se escurece, “está escuro aqui, pai”, a ausência que se forma no recinto no qual eu lírico se encontra, ou seja, por toda a parte. Nota-se também pelas linhas sequenciais, que o olhar distante descrito pelo autor, talvez, seja o olhar do pai sobre os acontecimentos pelos quais o filho está sendo submetido em sua ausência, trazendo para o cenário a miragem de uma “aparente geografia”, que é quando perdemos o chão ao perdermos de vez uma pessoa, quando entramos em um estado de solidão profunda, onde, agora, a decisão nos cabe resolver, e que agora nada mais faz sentido, pois a geografia, os locais e o mundo já não possuem mais a mesma significação que outroroa. O autor também faz uso do termo “invernece”, caracterizando um cenário de solidão, de tempos sombrios, tempos frios, tempos difíceis. Há aqui uma solidão que excedeu o peito e os prantos, há ainda o sentimento vazio que não se pode preencher, há ainda aquele sentimento de impotência, quando sentimos que não conseguiremos fazer nada mais, além de lamentar. “Reza mãe”, inicia-se na página 45, da seguinte forma: Mãe, tenho dois pés descalços / e, até esse exato momento / não consegui o pragmatismo das flores / o dia sempre morre em mim / mas levo comigo a sacralizações das coisas / foi isso que me ensinastes: / conduzir a voz aos longos lugares / reter os joelhos antes da urgência / lavar a mão no vagar hordieno da fé. Não consigo pronunciar sem engasgar, há algo que me impede de prosseguir com pensamentos, acho que estes intervalos que me impelem de obter êxito na concretização da leitura destas linhas se chamam lágrimas. Aparentemente, a mãe o evangelizou, o fez crer no impossível e na grandiosidade que Deus representa no mundo. “Ainda não consegui o pragmatismo das flores”, ser pragmático é ser objetivo e tentar enxergar com clareza, aspectos claros e objetivos que pautam uma explicação lógica para determinado tópico, talvez, o autor esteja apenas se confessando para sua mãe: eu ainda não entendi que segredo as flores carregam, ainda não entendi a objetividade com a qual elas são usadas. Sinto como se este poema realmente tivesse sido escrito durante uma reza, de joelhos, descalços, em prantos, sem chão, “o dia sempre morre em mim”. E, talvez, o mais bonito de tudo seja o fato de que o eu lírico guardará com carinho todos os ensinamentos transmitidos pela mãe em vida: mãe, não abandonarei os teus murmurios / conduzirei imponderavelmente aos caminhos [sem o alicerce dos ensaios] / todas as lições / que ilustram nossos calvários. Já a “consumação”, é o resumo de todo sentimento expresso pelo eu-lírico com relação aos seus escritos, saudade, ausência e aos seus sentimentos perante a caminhada neste mundo, solo.
Não há o que dizer para um livro que disse absolutamente tudo. Diversas coisas nos são ditas no folhear de uma folha e outra, diversos sentimentos são sentidos.  O luto, o inverno, as flores, a impaciência, a saudade, a dor, solidão, tristeza, tudo caracteriza de uma forma ou de outra, um cenário fúnebre de saudades. Leia este livro com o coração aberto, com a alma dissolvida em certezas. Leia com intensidade, com certezas e absorva cada pedacinho deste incrível manuscrito. A poesia é incrível, a homenagem também, o acontecimento que deu origem, não.  

SOBRE O AUTOR

Airton Souza é poeta e professor. Nasceu em Marabá, no Pará. Já venceu diversos prêmios literários, entre eles: Prêmio Proex de Literatura, promovido pela Universidade Federal do Pará – UFPA, 5º Prêmio Cannon de Poesia, Prêmio LiteraCidade de Poesia 2013, com o livro de poemas Face dos disfarces, Prêmio Dalcídio Jurandir de Literatura 2013, com o livro de poemas Ser não sendo, IV Prêmio Proex de Arte e Cultura, com o livro de poemas manhã cerzida,  III Prêmio de Literatura da UFES, promovido pela Universidade Federal do Espírito Santo, com o livro de poemas Cortejo & outras begônias, Prêmio Nacional Machado de Assis, promovido pelo Canal 6 Editora, 1º Lugar no Prêmio LiteraCidade Prosa 2014, 1º Prêmio Gente de Palavra 2017, organizado pela Editora Litteris, de São Paulo, 5º SFX de Literatura 2017, sendo o único vencedor nas categorias Contos e Poesia, Prêmio Carlos Drummond de Andrade 2017, promovido pelo Sesc de Brasília, I Prêmio CAPT de Literatura 2017, obteve ainda menção honrosa no Prêmio Letrinhas do Brasil, com o livro infantil Os dias dentro da saudade, foi finalista no Prêmio Kazuá de Literatura 2016, com o livro de poemas um acenos aos girassóis e só início de 2017 esteve entre os vencedores de mais de dezoito prêmios literários, entre eles venceu o 1º Prêmio de Poesia Cruz e Sousa, promovido pela Editora Do Carmo, de Brasília e o Prêmio Vicente de Carvalho, promovido bienalmente pela da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, com Menção Especial concedido ao livro de poemas crisântemos depois da ausência. Atualmente é mestrando de Letras, com ênfase nos estudos literários, pela Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará.

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