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[RESENHA #281] O sexo de Judas, de José Valdemar de Oliveira

O Sexo de Judas é uma narrativa intrigante sobre como as engrenagens sociais influem diretamente na vida alheia por meio do preconceito

terça-feira, janeiro 29, 2019

/ by Vitor Lima
O sexo de Judas | Foto: Divulgação/Penalux

OLIVEIRA, José Valdemar. O sexo de Judas. Guaratinguetá, SP: Editora Penalux, 2018.


SINOPSE: A história deste romance começa com uma introdução, quase poética, que sucinta muito bem o conteúdo escrito nas páginas. Com uma breve introdução intitulada “A Noite e seus vestígios” o autor salienta a divisibilidade do humano, fragmentado naquilo que ele é, de fato, mas que é escondido nas falsas aparências das normais sociais. A noite é o período no qual os instintos sexuais, os sentimentos e desejos afloram contra a grande repressão embutida na alma durante o dia, suscitada pelo desempenho de estados emocionais escondido sobre a forma das aparências. Dois homens, aparentemente distantes, encontram-se numa noite, em local isolado, com pouca movimentação. Deste contato ocorrerá o assassinato de um pelo outro, seguido do cometimento do suicídio daquele que praticou o assassinato. Uma única testemunha ocular elucidará as aparentes razões de tal ato de violência, tendo entendido, por meio da discussão, que os dois sujeitos mantinham um relacionamento sexual. O envolvimento sexual é representado como um desvio em relação as normais heterossexuais, de forma que o relacionamento dos dois homens se estorvava em um distanciamento afetivo, assim mantido, devido à grande dose de culpa e medo sentida, por ambos, em decorrência do forte julgamento externo. Nesta aparente frivolidade entre os dois, escondiam-se uma afetividade que surgiu no caos emocional, fato que lhe levará ao fatídico desenlace. Após a apresentação de tal cena, a narração começará com a história de Serginho, sujeito jovem que se entende como homossexual. Nos relatos do protagonista, a acentuada atmosfera de afetividade precária continua se apresentando nas relações familiares e com o outro. O “Sexo de Judas” é um romance crítico que aponta a fragilidade das estruturas sociais, repressoras, que de tanto atormentarem aqueles que se desencaixam do convencional, acabam fomentando ainda mais a violência.
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O sexo de Judas é um romance escrito pelo autor José Valdemar de Oliveira, publicado pela Castiçal — selo do gênero romance da Editora Penalux — no ano de 2018. O livro contém 192 páginas e narra a história de um personagem que vive entre a linha tênue do prazer e do pecado, entre outras palavras: entre o clímax e o arrependimento. 

Na sinopse do livro poderemos observar algumas palavras que descrevem de forma sucinta enredo desta obra: a divisibilidade do humano, fragmentado naquilo que ele é, de fato, mas que é escondido nas falsas aparências das normas sociais". O livro é uma narrativa poética de como os nossos instintos sexuais tomam o nosso ser durante a ausência da saciedade. Podemos inferir que o individuo aqui retratado luta contra seu interior, e sente-se assim, um Judas, um traidor, alguém que traiu não somente a si próprio como também sua sexualidade, o levando a fazer por diversas vezes aquilo o que sua sexualidade lhe permite fazer: desfrutar do prazer carnal e saciar-se através de seus desejos e da entrega total que a noite e os desejos trazem a tona. 

Esta história é a linha entre o prazer e o arrependimento. Aqui, nosso protagonista é homossexual. Sem mais. A história gira em torno dos olhares das pessoas sobre ele e sobre uma decisão que ele tomou para sua vida, decisão esta, que dá abertura ao livro e a toda cadeia de acontecimentos. A narrativa é fluida, objetiva e direta naquilo o que se propõe enquanto romance. Algo que fica muito claro durante a narrativa é a quebra de um paradigma social: a visão heterossexualizada predominante de uma sociedade, onde o julgamento pesa sobre aqueles que sofrem de um desvio daquilo considerado correto. Este julgamento também é observado sob a ótica da personagem que se sente amargurada, culpada e diferente dos demais por ser como é e por nutrir os sentimentos que nutre no emocional. 

A narrativa criada por José Valdemar de Oliveira não é uma narrativa qualquer. Ela possui uma ótica muito abrangente com relação à uma observação concisa acerca da sociedade, do preconceito e dos paradigmas fomentados pela mesma. Uma ótica histórico social que constrói barreiras entre o sentimento alheio e a vida social, ou seja, podemos encarar esta narrativa como uma forma de impor por meio da literatura uma valiosa dica de como as engrenagens sociais funcionam por meio da repressão daquilo o que é considerado inadequado e diferente do que se espera de qualquer pessoa em um padrão sexista e heterossexual. A crítica aqui é relacionada não somente a como a sociedade lida com a visão exteriorizada da vida alheia, mas também sobre os reflexos que estes comportamentos preconceituosos influem na vida doutros. 

Esta narrativa me lembra muito um livro que li há um tempo atrás e me fez pensar tanto quanto este. Me foi apresentado no ano de 2016 um livro maravilhoso intitulado Implacável sedução, Inexorável solidão, do autor carioca Christian Petrizi, publicado pela Cultura em Letras Edições. A diferença entre as obras é que Petrizi não trabalha o sentimento de culpa na mesma intensidade que José Valdemar, mas a rota para o clímax é o mesmo. Existe aqui uma dualidade concepcional acerca do mesmo tópico em meio aos pensamentos filosóficos que se pode obter por meio da leitura destas obras: ¹A supervalorização da sexualidade tendo como visão um padrão heterossexual, onde aqueles que destoam deste caminho sofrem com o estigma da sociedade com relação ao preconceito, e claro, ²a visão de ambos os autores com relação a culpa dos indivíduos sobre si mesmo.

Um roteiro poético, inteligente, bem escrito e muito bem pensado e elaborado. Talvez este não seja um livro para pegar poeira na estante. Este é um livro para ser lido, relido, analisado, compreendido e estudado. Não há como ler uma obra que traz um tópico tão recorrente como este e ignorar. Deve-se (devemos) nos ater àquilo o que se pode ser abstraído em sua totalidade poética descritiva e nos preparar para lidar com as fortes emoções criadas, descritas e enredadas por seus respectivos autores. 

Leia este livro com a mente aberta e com vontade. A leitura é viciante, os sentimentos são implacáveis e o desejo de compreensão além daquilo o que se tem nas mãos é inegável. Uma leitura para qualquer hora do dia ou da noite. 

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O AUTOR
José Valdemar de Oliveira é de Maragogi, Alagoas. Ganhou o primeiro prêmio literário aos 19 anos, num concurso de contos promovido pela UFAL. Mais tarde, foi agraciado com dois prêmios da Academia Alagoana de Letras. Foi finalista do Concurso da Radio France Internationale, Paris, França. Em 2015, obteve a terceira colocação no XII Prêmio Barueri de Literatura, categoria conto. Tem quatro livros publicados, mas só dois estão em catálogo: Vapor Barato, ed. 7Letras, RJ, 2007 (contos); e O Inferno São os Outros, ed. CEPAL, 2014 (romance). Participou da antologia de contos Casa de Orates, ed. Mondrongo, 2016.

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