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[RESENHA #282] Escombros de ninguém, de Paulo Rodrigues

Escombros de ninguém é um emaranhado poético sobre as transições que vivenciamos em vida. Ideal para refletir acerca da existência e do sentimental

quinta-feira, janeiro 31, 2019

/ by Vitor Lima
Foto: Penalux / DIVULGAÇÃO

RODRIGUES, Paulo. Escombros de Ninguém. Editora Penalux: Guaratinguetá, SP, 2018. 78p 

SINOPSE: "Escombros de Ninguém" é um livro fascinante. É o sopro vital de um poeta que recusa o caminho do óbvio. Aqui, neste poemário de múltiplas nuances, o leitor encontrará poemas que abordarão, desde as inquietudes do mundo moderno, às micros vivências da vida miúda. Tudo expresso com a clara certeza de quem achou seu próprio caminho. Paulo Rodrigues pertence a uma família poética que aborda a linguagem pela via do estranhamento, cuja construção verbal nos instiga a sentir arrepios, como se suas palavras tivessem dentes. Trata-se de um dos mais representativos poetas do Maranhão atual.

✎✎✎

Escombros de ninguém é um livro de poesia escrito pelo autor Paulo Rodrigues, publicado pela editora Penalux. O livro divide-se em quatro partes (contando a apresentação), sendo elas: Epifania dos escombros, escrita pelo também poeta  e doutor em literatura Antonio Aílton; Dádiva; Prato Fundo e Páginas em Branco. A divisão desta obra apresenta-nos uma visão crescente do autor com relação a vida, sentimentos de estranheza com o mundo contemporâneo, inquietudes dos sentidos alheios ao comportamento social e aceitação e transformação da visão de mundo. Honestamente eu gostaria de ser capaz de comentar ou relatar algo sobre esta obra, mas aparentemente, tudo já foi dito pelo professor e doutor Aílton já na abertura desta icônica obra. 

Poesia é tudo aquilo o que não conseguimos guardar para nós, é tudo aquilo que está além de nossa realidade e é tudo aquilo que não conseguimos entender sob uma ótica superficial. Poesia não é a arte de brincar com as palavras, é a arte de transmitir e fazer sentir aquilo o que não cabe a nós, é fazer com que outras pessoas sejam atingidas pelo âmago que rege nosso interior e muda nossa visão pré-concebida de universo, de mundo, de realidade. A poesia contém em si o poder de transformar a visão do poeta, do leitor e dos apreciadores de uma boa escrita em um emaranhado de questões jamais pensadas. Isso por que não se faz poesia, se vive a poesia. Ser poeta é vivenciar a vida e saber conta-la por meio de estrofes e sonoridades. Viver é um ato poético e escrever sobre o que se vive, é ser poeta. E convenhamos, Paulo Rodrigues domina bem a arte do viver, a arte do contar e a arte de dominar o espaço daquilo o que não cabe a nós. Sua escrita narra aquilo o que os olhos vêem, mas não percebem. De fato, há muito o que se comentar sobre este livro.

DÁDIVA — Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade (Fernando Pessoa).

O primeiro capítulo desta obre tem um nome que nos é familiar e estranho ao mesmo tempo. É familiar pois fomenta em nós um desejo de conseguir alcançar um desejo pleno, de realizar uma faceta jamais realizada ou de se alcançar um determinado objetivo jamais alcançado. Dádiva é tudo aquilo o que jamais pensamos conseguir, mas que nos é apresentado pela vida. Dádiva também nos é estranho, pois não é algo com o qual estamos habituado, não é algo pela qual estamos em busca. Dádiva não é aquilo o que os homens buscam, é algo que eles encontram.

A dádiva principal e mais exposta nesta poética é a vida. Aqui, o autor trabalha incansavelmente poemas trazendo a tona a vida dos peixes como reflexão. A vida dos peixes que é tão ameaçadora e ao mesmo tempo tão fértil. A vida que tem a calmaria e tempestades que nos são apresentadas em vida. Os caminhos aqui são inúmeros e o sentimental é trabalhado de forma que o interlocutor perceba as nuances de uma percepção aguçada da vida, dos recomeços e das oportunidades de uma nova chance.

carregamos uma piracema
sem tempo de eclodir
as feridas nas nadadeiras.
                           (D'ÁGUA, p.28)

liberdade:

quero
a liberdade da lamparina
nos restos do teu sítio arqueológico.
                            (ESCAVAÇÃO, p.29)


as tempestades que afligem a vida...

um nó
no passado
uma cruz
no vício
o arbítrio
é o beco
sem saída.
           (ENGASGO, p.32)

PRATO FUNDO — Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó (T.S ELIOT)

A metáfora e o sentido principal da arte da capa está neste capítulo, está nestas páginas e nas linhas que compõe o sentido principal desta obra. O segundo capítulo é como se fosse um reforço daquilo o que nos foi dito e alertado no primeiro. O segundo capítulo é a imortalização da escrita e dos sentimentos mais profundos. 

nossos olhos
escondem-se nas ruínas:
cidade
civilização
ou polis.
nunca mais cruzamos nossas ternuras.
                      (MEMORIAL DOS TEUS ASSASSINOS EM SÉRIE, p.42)

E há aqui algo que me deixa intrigado, uma narrativa que para mim obtém uma infinidade de significados. O li pela manhã e senti algo que não pode ser descrito por palavras, e tornei o ler a noite e o significado já não é mais o mesmo. A poesia não é gratuita, ela é fruto de nossos desejos e momentos que são inconstantes e incessantes.

são nove e dez da manhã.
é novembro de qualquer ano
do século XXI.
estou só
entre os livros
e preciso morrer.
eu quero a liberdade da lamparina
este escuro do quarto,
quando suspendo os enganos.
                    (O NADA, p.43)

PÁGINAS EM BRANCO — Varre tua esperança tíbia o tigre da Coréia da parede (Max Martins)

Uma nova oportunidade. Uma página em branco e um novo sentido constroem-se a partir daqui.

as minhas águas
arrebentam a tua sede.
inundação da memória.
                   (DAS ÁGUAS, p.61)

as portas fecham
somente
as cascas
dos meus olhos.
              (PAPILLON, p.64)

Enfim, há de se constatar que esta obra é uma vastidão poética interminável, onde os sentidos encontram-se no emocional. As palavras aqui dispostas são vidas em linhas, são sentidos que se encontram ao nosso emocional. Paulo Rodrigues escreve com leveza, com ternura... Com paixão. Sua escrita quase que indescritível possui uma infinidade de sentidos, uma infinidade de construções e constatações. Um livro apaixonante. É normal ficar sem palavras o lendo. Ah, a reflexão é apenas uma companheira durante o folhear das páginas.

NOTA✎✎✎✎✎✎

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