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[RESENHA #284] Como ser ninguém na cidade grande, de Luiz Roberto Guedes

quinta-feira, fevereiro 07, 2019

/ by Vitor Lima
Foto: Penalux / Divulgação

GUEDES, Luiz Roberto. Como ser ninguém na cidade grande. Guaratinguetá, SP: Editora Penalux, 2018 172p


O crítico e escritor inglês David Lodge, em A arte da ficção, afirma que a estrutura de uma narrativa é como a estrutura de vigas que sustenta os arranha-céus: você não a enxerga, mas é ela que determina o formato e as características do edifício.
Todas as histórias deste livro possuem essa estrutura: só o escritor a enxerga, já que mal olhamos para as vidas pequenas na esquina, no dia a dia da cidade frenética. Guedes é taxativo quanto a isso, desde a primeira narrativa: Ninguém olha duas vezes para um mendigo, a não ser (...) um escritor deparando-se com uma história.

Leitor, prepare-se para idas e vindas pela metrópole paulistana, conduzido por um criador que "se ocupa de pessoas que não existem”. Como na história do mendigo que escrevia um diário, do advogado que adorava seduzir proletárias, do professor sessentão que se envolveu com uma adolescente, do estudante que alugava um quarto no apartamento da viúva solitária ou mesmo do futuro distópico presentificado em Telemundo 2050. Essa multiplicidade de olhares reflete um testemunho de nosso tempo, numa prosa direta e repleta da condição humana.
– Roniwalter Jatobá, escritor

Como ser ninguém na cidade grande é um livro de contos escrito por Luiz Roberto Guedes, publicado pela editora Penalux no ano de 2018. A proposta narrativica do autor procura esclarecer em seus dezoito contos a questão: quem são aqueles que não são ninguém?❞, em outras palavras, quem são as pessoas que desaparecem em meio ao caos da cidade grande? Estas pessoas que não enxergamos, mas que estão ali, fazem parte de uma grande cadeia social de vida, exclusão e acensão...rotina. Aqui, o autor trabalhará a questão do eu em detrimento de nós, em outras palavras: o relato literário de histórias focadas em pessoas que se tornam o centro da narrativa, mas que conduzem uma linha de pensamento que agarra-se à realidade social contemporânea com suas reflexões. Pessoas individualistas nos grandes centros metropolitanos. Como pode? Como ocorre? E quem são estas pessoas que no meio de tantas outras, acabam sumindo? Qual sua relevância na escala social e que reflexões pode-se tomar e se atentar a partir destes escritos? Guedes conduz uma narrativa que nos provoca inquietações e indagações infinitas acerca do social contemporâneo e do comportamento individualista.

É claro que esta obra possui uma lógica poética, e não me refiro a sonoridade, mas sim a capacidade do autor em transmitir uma mensagem clara e lógica que vai além daquilo o que se é arquitetado. Aqui, como em qualquer texto poético, a lógica do autor é trabalhada nas entre linhas, de forma que o leitor sinta-se convidado a decifrar o verdadeiro significado de cada um de seus contos a sua maneira.

O primeiro conto desta obra "pessoas inexistentes", apresentar a vida de duas pessoas com mundos completamente diferentes, de um lado temos um mendigo, do outro, um escritor. Aqui, a figura do mendigo pode ser encarada de duas formas distintas, sendo elas: A figura de alguém abandonado em meio a metrópole pode representar a solidão social em meio a ascensão, uma vez que o autor cruza a vida de duas pessoas completamente distintas para criar uma linha narrativa entre ambos, uma vez que dito que :

Ninguém olha duas vezes para um mendigo. A não ser um repórter fotográfico em busca de um personagem. Ou um escritor deparando-se com uma história. (p.7)

E a narrativa não estava incorreta, realmente, quem olhou para o mendigo foi de fato, um escritor que deparou-se com uma história ambígua, a história de um mendigo e a história do que aquilo mendigo tinha a oferecer. O mendigo também pode significar o abandono total da sociedade com relação as pessoas que "não são ninguém", ainda que o mendigo tivesse uma capacidade cognitiva maior que a do escritor em produzir um conteúdo de "antiliterário", mas de relevância para o escritor que o encontra, ele não possuía mesma posição social, o fazendo ser excluso do campo social. Aqui fica uma reflexão interessante de se fazer: se para ser alguém e para ser notado eu precise produzir algo de relevância ou interesse/contribuição social, por que o autor possuía uma posição e o mendigo não? Não há como negar que a sociedade está repleta dos charlatões e que os artistas, na maioria das vezes, estão nas ruas.

As narrativas que sucedem após este primeiro conto, seguem a mesma linha tênue. Aqui nós iremos nos deparar com romances proibidos, falso moralismo social e um emaranhado de outras questões que se fazem tão distantes e tão presentes. Esta é uma obra interessante em diversos aspectos, principalmente no tocante de uma análise breve acerca do social contemporâneo e de todas as questões que se fazem presentes entre um conto e outro.

“Como ser ninguém na cidade grande”, contos. Autor: Luiz Roberto Guedes. Editora Penalux, 172 págs., R$ 40,00.
Disponível em:
http://editorapenalux.com.br/loja/como-ser-ninguem-na-cidade-grande

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