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[RESENHA #286] Saltar Vazio, de Marcelo Adifa

Saltar Vazio é um emaranhado de questões que se formam acerca das decisões que tomamos de forma precipitada, esquecendo-nos da fragilidade das relações humanas

sábado, fevereiro 09, 2019

/ by Vitor Lima
Foto: DIVULGAÇÃO/PENALUX

ADIFA, Marcelo. Saltar Vazio. Guaratinguetá, SP: Editora Penalux, 2019, 128p.


A memória está em alto patamar, quando na poesia de “Saltar Vazio”, é ela quem justifica o ato do salto, é nela que os precipícios da alma humana se anunciam, nas vontades dos desejos que se tornam impossibilitados, devido as sujeições ao tempo. A despeito de toda a importância das memórias, estão altamente cotadas, as palavras que ocupam grande parte da consciência humana, mesmo a poesia, nada é se desvinculada da capacidade de racionalizar; por meio de comparações, de imagens. As recordações dão significado à poesia que reflete o interno dos homens, “a poesia que irá mostrar as dores humanas”. O homem se perde, muitas vezes, vítima de sua própria racionalidade, que é, por sua vez condenada ao funcionamento limitado das memórias, como se no ponto clímax da saudade viessem também o atordoamento da procura do passado, nas pequenas coisas do presente, no riso, nos carros que andam. No entanto, fugindo desta quase determinação humana de essência saudosista, existe a possibilidade esperançosa para o ser humano: ser total no estado do presente. Neste sentido, o autor provocativamente declama “a cura das feridas está no expelir na urina a lembrança”.



Eu queria saber o que dizer acerca desta escrita. Eu queria conseguir escrever sobre aquilo o que eu senti ao ler as páginas deste livro. Eu queria demonstrar de forma clara e objetiva o quanto me sinto despedaçado pelos mais variados motivos, eu queria conseguir ser capaz de colocar para fora tudo aquilo o que sente e deixa-se sentir ao ler página por página, ao deslocar-se do aqui para o lá e acolá das lembranças que somos submetidos. Eu queria que Adifa me mostrasse ou fosse capaz de me dar a receita de como encarar as duras realidades desta obra de uma forma menos dolorosa. Eu queria, sinceramente, que me fosse apresentado um método de como encarar a realidade daquilo o que me foi revelado. Vivemos os dias, as horas e os anos sem ao menos nos dar conta da fragilidade das relações, da vida, do sentimental. Saltar vazio é um livro sobre como o nosso comportamento e vida são tão frágeis, é um livro sobre tudo aquilo o que precisamos refletir, é uma obra que nos atenta para vida e para tudo aquilo o que nunca paramos para observar por valorizar uma vida repleta do vil; deixando de lado o sentimental, a real essência da vida e aquilo o que importa.

A abertura deste livro dá-se, como em qualquer outro, através de um prefácio escrito pela escritora Clarissa Macedo, autora da obra "na pata do cavalo há sete abismos". Podemos notar que assim como a fragilidade salta de uma página para outra, que Clarissa sentiu e transmitiu com clareza tudo aquilo o que Adifa descreveu das relações. Das fragilidades, do sentimental. A obra é composta por noventa poemas, cada um deles com uma particularidade acerca daquilo o que precisamos refletir na existência, cada um  deles carregando uma imensa - e assombrosa - revelação: de que não há tempo para pensar, apenas para viver e agir. 

No primeiro poema, intitulado "aviso", o autor diz de forma clara que a leitura não será nada fácil, e que as dores humanas serão expostas de forma escancarada. Como podemos evitar não sofrer e não sentir, sendo humanos?

primeiro aviso: feche as portas corra! escape antes que a página vire-se no convite que falta  à leitura das dores humanas (p.15)

Após esta abertura, classificada pelo autor como "do que está na memória", daquilo o que passamos e passaremos, o autor dá prosseguimento a uma série de reflexões, dolorosas acerca do comportamento humano e das revelações que a vida nos traz. Você consegue ouvir o vento? Você consegue manter sua rota mental e visual clara? Você consegue traçar objetivos? Você consegue impor a si mesmo um padrão de comportamento ao qual seguirá até o fim? Você consegue sonhar e ir até o fim? ouvir o vento, planejar, executar e possuir uma visão explanada acerca daquilo o que queremos não é tão fácil quanto se pensa, pois...

ouvir o vento
              só consegue quem se cala,
vigia a alma
                 e descobre que é menor que uma dobra do tempo 
(p.16)

Conseguir se manter em equilíbrio em nossa rotina é algo primordial para o sucesso, atentar-se para as oportunidades da vida e para as oportunidades que nos são ofertadas quando não estamos atentos  ou em conexão com aquilo o que somos. Não atentar-se é não saber controlar as inexplicáveis fases que acometem a nossa vida, é descobrir-se pequeno diante do tempo, das horas, dos dias e das sensações. É descobrir-se incapaz de conseguir caminhar e trilhar um caminho que exige uma segurança que brota em nós nas experiências quando paramos para ouvir o vento, quando paramos para perceber a nossa pequenez, quando paramos para refletir, quando paramos para nos programar... quando começamos a viver. 

a casa não cabe nos sonhos
o corpo não faz parte da sala

de estar, companhia presente
a carne maior que as paredes

maior que eu
o desconforto
residir num quarto, ínfimo o estar
sufocantes as paredes, o porta-retratos
é preciso romper (p.24)

...Nada mais explica melhor o caráter e os desejos íntimos de um homem, se não, as tuas escolhas.O maior fracasso de um homem é querer substituir aquilo o que é finito - a família, o sentimental, as relações de amizade, a convivência social - pelo vil da vida. O maior fracasso de um homem é achar que um móvel substitui a presença de um alguém. Talvez, só talvez, o homem fracasse pois ainda não tenha uma percepção ótica clara acerca do real sentido da vida: a vida passa, e o tempo não volta.

pedi-lhe um abraço
perdi-me no tempo
em que acordava em cabelos
e beijos de teu querer

levantar é suplício
os ossos estralam
e o outro lado da cama
é um imenso vazio (p.26)

Ao folhear das páginas deste livro, nota-se que o aviso dado não era brincadeira: cuidado, este livro fala da fragilidade das relações humanas, dos sentimentos, do acaso, do hoje. Fala daquilo o que temos medo de enfrentar e conhecer, fala das lutas que não lutamos e o tempo que passa sem que o percebamos. Este livro fala da fraqueza do humano, que é viver como se o amanhã pertencesse a ele, como se o tempo voltasse e como se as escolhas feitas pudessem ser refeitas, modificadas ou anuladas. O homem que não encara a si próprio ou seus medos, o homem que foge da tempestade e abriga-se nos dias de chuva, o homem que teme os raios e relâmpagos dos céus, mas que não valorizam a companhia e o nascer do sol. Os homens que fitam os faróis com sorrisos que se desfazem com facilidade, mas que no fundo, talvez não saibam ou reconheçam o valor de um sorriso verdadeiro. Eu poderia passar horas dizendo que este livro me fez chorar, emocionar e refletir, mas isso não seria o suficiente. Não seria metade do que sinto quando escrevo, nem sei se um dia eu conseguiria expressar em palavras o quanto estes poemas mudaram minha percepção de vida.

Marcelo Adifa não escreve, conta histórias. Não faz apenas poema, faz narrativas, não nos faz sorrir, nos faz chorar. Adifa consegue em estrofes manter nossa atenção voltada para aquilo o que precisamos identificar naquilo o que nos propomos a viver. Um livro para toda e qualquer pessoa que deseja conhecer-se, pois as vezes aquilo o que sabemos de nós é apenas uma porcentagem daquilo o que prestamos atenção. E quanto a tudo aquilo o que foge de nossa percepção quando não estamos vivendo, apenas existindo?


Marcelo Adifa Nasceu em Sorocaba em 1979. Engenheiro, professor, compositor e poeta. Pela Penalux publicou Exílio (2015). A Quem Se Fizer Estrela é seu segundo livro de poemas pela editora.

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