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[RESENHA#288] A grande morte do conselheiro esterházy, de Alberto Lins Caldas

quarta-feira, fevereiro 13, 2019

/ by Vitor Lima
Foto: Penalux/DIVULGAÇÃO
CALDAS, Alberto Lins. A grande morte do conselheiro esterházyGuaratinguetá, SP: Editora Penalux, 2018, 206p

Alberto Lins Caldas é um autor de verve intensa e questionadora. Sua estratégia nesta obra – a de suprimir palavras e pontuações – auxilia no fluxo filosófico e colabora para a atmosfera de negrume, de quarto fechado, um cenário típico para as últimas horas. Apenas o que precisa ser dito com as exatas palavras se apresenta. Ao longo do livro, temos a indagação se o autor suportará manter o ritmo vertiginoso de apresentação de seu conselheiro – uma espécie de oráculo, de divindade a ressoar como um espectro, um inimigo imaginário, uma foice pesada e grandiosa, pensando e executando sua ideologia: como se todo reviramento fosse apenas mais um lado da mesma coisa. O caráter místico imbrica-se com a sujidade da natureza humana. Temos, então, a potência da singularidade aliada ao melhor da tradição ensaística. Admirável exercício de solidão, este é um livro-crítica à racionalidade, à pretensão de saber das coisas do mundo. [ ✒️ por Daniel Zanella]

De que mal ele vai morrer? Capricho 40/80
Há muito o que se falar sobre esta obra, e nada melhor do que uma breve análise da arte da capa para uma explanação do conteúdo da escrita desenvolvida por Alberto Lins Caldas. A figura adotada pelo autor para compor toda densidade sua escrita não poderia ter sido melhor. Nota-se na capa uma pessoa debruçada sobre um leito, ao seu lado encontra-se um médico satirizado na imagem de um jumento. Esta imagem é de autoria do pintor e gravador espanhol Francisco de Goya y Lucientes. No ano de 1799 o autor lançou uma série de oitenta gravuras e ilustrações de natureza satírica, e a estes conjuntos de obras Goya chamou de ❝Los Caprichos❞. Goya, frequentemente reconhecido como o ultimo dos grandes mestres e o primeiro dos modernos❞, é mais conhecido por seu óleo em movimento e muitas vezes perturbador na tela; no entanto, ele também pode ser considerado um dos mais importantes e talentosos que já experimentaram o meio. Embora seja devido a seus magníficos retratos inspirados no rococó que ele pode reivindicar o epíteto de Último dos grandes mestres, são suas pinturas pós-1790 e, mais importante, sua gravura e aquatints que dão a Goya a indicação Primeiro dos modernos❞ . Uma de suas criações mais curiosas e profundas é a reflexão estampada na capa da obra de Lins Caldas, intitulada por Goya como De que mal ele vai morrer? (40/80 caprichos), aqui o artista tem como alvo médicos que ele obviamente considera perigosamente ignorantes. Com esta legenda, Goya sugere que o tratamento do médico ignorante pode ser tão perigoso quanto a doença da qual o paciente está sofrendo, fazendo uma crítica direta a forma como o atendimento ao doente é feito e os perigos de fazê-lo de forma caprichosa, ou melhor, como melhor lhe for conveniente. Mas não se preocupe, Goya não ocupou apenas em criticar os médicos, suas gravuras criticam uma série de profissões, todas elas de forma satírica. Mas, por que Lins Caldas adotaria uma capa tão antiga para uma narrativa tão atual? Lins possui a resposta escrita em suas 205 páginas de narrativa. A capa não poderia ter sido melhor, reflexões fúnebres acerca de uma pessoa em seu leito de morte e os ensinamentos que o fim de um ciclo indicam na vida de um protagonista sempre tão disponível, sempre tão presente - o mordomo - que assiste esterházy falecer dia após dia.

Uma das publicações mais conhecidas de Goya, Los Caprichos é um álbum de 80 estampas caprichosas que carregam uma crítica mordaz da insensatez da sociedade. No cenário absurdo visto aqui, o artista ridiculariza a profissão médica descrevendo um médico como um idiota. Não está claro se o paciente está morrendo de uma doença ou das administrações do médico ignorante. Goya concebeu originalmente o projeto como uma série de sonhos. Em um rascunho inicial do frontispício, agora na coleção do Museo del Prado, em Madri, ele escreveu: O autor sonhando. Sua única intenção é banir as crenças prejudiciais comumente mantidas e perpetuar com este trabalho de capricho o sólido testemunho da verdade. Desta forma, podemos encarar que o médico satirizado na capa é o mordomo que assiste o definhar de esterházy.

Durante a narrativa da obra, podemos observar que o autor tece de forma magistral um enredo que vai se configurando página após página no interior das linhas e no interior de seus personagens, trazendo também para fora esta narrativa acerca dos atributos humanos e seus intempéries. Na primeira página, definitivamente na primeira, poderemos observar que o mordomo abre-nos uma porta incisiva - pois através dela poderemos obter e ter reflexões mais profundas acerca do enredo - de que ele sempre esteve ao lado do conselheiro esterházy: 

“só falta falar. mesmo sabendo q as palavras não são nada só falta falar. é isso q minha pessoa tem pensado a vida inteira. mas minha pessoa nunca fez isso nem consigo mesma. se deixar levar pelo dizer. mergulhar no q sempre foi tudo e é sempre a última palavra. retornar pro essencial. não de quaisquer vidas mas da vida de minha pessoa com o conselheiro esterházy a vida de minha pessoa depois do conselheiro esterházy a vida de minha pessoa durante a longa dolorosa estranha morte de duzentos e setenta e dois dias do conselheiro esterházy”.

Esta forma de literatura - reflexiva, tangível, atmosférica e palpável - mantem o leitor em suas questões quase que de forma monóloga, onde a cada página lida, surge uma questão. As questões relacionadas a uma pressão criada pelo enredo ao referir-se constantemente no tocante das últimas palavras e horas, as questões que se formam ao analisar-se a fundo a capa e a composição descritiva do sentimento dos protagonistas envolvidos e as questões que se formam dentro de nós acerca de nós mesmos. O livro possui uma narrativa extremamente complexa e forte, sobretudo por mostrar de forma clara e crua a convivência de um mordomo com seu conselheiro. Ao passar os dias e noites ao lado da cama de esterházy, o mordomo passa a indagar-se e pensar com frequência acerca da fragilidade humana, do tempo de vida, e claro, na morte. Podemos pensar a morte deste conselheiro por diversas óticas e correntes filosóficas, podemos fazer diversas análises cronológicas e históricas acerca de como a relação de um moribundo e um servo se dá de fato; afinal, o que ocorre nas últimas horas? de que forma a relação implica em esterházy ou em seu mordomo, a quem nunca diz seu próprio nome, apenas "minha pessoa", preferindo manter-se no anonimato. Como podemos pensar este cenário fúnebre com o cenário estampado na capa? Como podemos encarar a ignorância do médico que deixa seu paciente morrer por capricho com a vida de um mordomo, que aparentemente, é devoto, preocupado e está sempre presente ao lado de quem está abandonando esta vida? De que forma os pensamentos, delírios e colocações do mordomo podem nos servir para uma análise lúcida acerca daqueles que nos cercam, sobretudo, da vida? Penso sobre.

Eu, em particular, acredito que a reflexão deste livro esteja na busca pelo sentido real da vida, vez que, a todo instante, somos tomados por reflexões e pensamentos obscuros acerca da existência, de como se nada valesse viver ou buscar viver, como se a vida fosse um modo automático, onde só se vive e não se busca.Novamente o mordomo faz-nos desacreditar da existência como uma busca pelo o que viver e acreditar, quando nos diz: ❝ele o conselheiro esterházy sabia e me fez saber q a vida dum homem vista como um todo é o que se chama duma patética verdadeira e crua tragédia mas vista no detalhe na cousa miúda não passa de ridícula desavergonhada e grotesca comédia❞.

Há uma conclusão e sentido que merecem destaque, ou melhor, que merecem ser lidos e conhecidos. Por mais que livro possua e traga uma atmosfera extremamente triste acerca do enredo de Lins Caldas, suas reflexões filosóficas e sua narrativa são extremamente intrigantes e relevantes por uma infinidade de razões.


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