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[RESENHA #294] A língua de Eulália, de Marcos Bagno

terça-feira, fevereiro 19, 2019

/ by Vitor Lima
Foto: DIVULGAÇÃO


ISBN-13: 9788572440813
ISBN-10: 857244081X
Ano: 2003 / Páginas: 251
Idioma: português 
Editora: Contexto

Nossa tradição educacional sempre negou a existência de uma pluralidade de normas linguísticas dentro do universo da língua portuguesa; a própria escola não reconhece que a norma padrão culta é apenas uma das muitas variedades possíveis no uso do português e rejeita de forma intolerante qualquer manifestação linguística diferente, tratando muitas vezes os alunos como "deficientes linguísticos". Marcos Bagno argumenta que falar diferente não é falar errado e o que pode parecer erro no português não-padrão tem uma explicação lógica, científica (linguística, histórica, sociológica, psicológica). Para explicar essa problemática, o autor reúne então n' A LÍNGUA DE EULÁLIA as universitárias Vera, Sílvia e a esperta Emília, que vão passar as férias na chácara da professora Irene. Sempre muito dedicada, Irene se reúne todos os dias com as três professoras do curso primário, transformando suas férias numa espécie de atualização pedagógica, em que as "alunas" reciclam seus conhecimentos linguísticos. Mais do que isso, Irene acaba criando um apoio para que as "meninas" passem a encarar de uma nova maneira as variedades não-padrão da língua portuguesa. A novela flui em diálogos deliciosamente informativos. A LÍNGUA DE EULÁLIA trata a sociolinguística como ela deve ser tratada: com seriedade, mas sem sisudez.


Preconceito linguístico❞, Marcos Bagno
Editora Parábola


Em ❝a língua de Eulália❞, de Marcos Bagno, conhecemos a história de Eulália, uma personagem simples que reside com Irene, uma professora aposentada. Trata-se de uma novela que tem como foco narrativo a apresentação das variedades linguísticas no português brasileiro. A obra é uma maneira simples de compreendermos a norma culta, o português não padrão, as variedades linguísticas e a confusão que geralmente fazemos entre língua e fala. Afinal, esta confusão resultou no ditado de que "só existe um modo correto de falar o português", esta confusão entre língua e fala é estudada em outras obras de Marcos Bagno, como o famoso "preconceito linguístico".

A obra tem como foco principal apresentar de forma clara através do cotidiano de suas personagens (Tia Irene, Eulália, Vera, Silvia e Emília)  apresentar ao leitor a variedade linguística existente. A narrativa é composta de forma que o leitor venha a entender e ver-se na história como no cotidiano, através de uma clara proposta de introdução de uma vida mais palpável por parte de seus personagens. Aqui, também aprenderemos a ser mais receptivos com relação ao português não padrão, propondo uma postura diferenciada por parte da sociedade.

Eulália reside com Irene em um sítio. Irene é uma professora aposentada e recebe algumas visitas em sua casa, todos elas - de certa forma - ligados ao ensino de línguas (alunas, professoras e etc), o que também nos mostra que este preconceito linguístico também está impregnado nas salas de aula, nas redes de ensino e nos estudantes do curso de letras. Ao observar o modo "diferente" de Eulália se comunicar, as amigas da Tia Irene começam a caçoar da forma com a qual a protagonista se expressa, porém, Irene, formada e ciente da situação, decide ensinar a todas sobre a variedade não padrão e a importância do modo particular de comunicação do indivíduo. O livro é parte do resultado dos trabalhos do autor na área da sociolinguística - área responsável por estudar as variedades linguísticas existentes na sociedade -. Atrevo-me a dizer que esta obra é uma explanação mais detalhada e objetiva da obra "preconceito linguístico", do autor. Aqui, com uma sutileza sem precedentes, o autor conduz o leitor a entender as inúmeras variedades existentes devido a variedade geográfica, as diferenças existentes entre o português de Portugal e o português do Brasil.

A personagem Eulália pode ser considerada como a representação geográfica da variedades existentes, bem como Irene, que mostra-se esclarecida no quesito conhecimento com relação a linguagem, e claro, suas visitas mostram-se receptivas ao saber, o que acaba com seus preconceitos. Em suma, o objetivo secundário deste livro, é que o conhecimento acaba com o preconceito. Deter o conhecimento de que todos possuem uma determina forma de comunicar-se, e que isso dá-se pelos mais variados fatores, é de suma importância para compreendermos que o português brasileiro é constituído de uma série de contribuições linguísticas de outros países, e que cada individuo desenvolve uma maneira diferente de falar, e que esta variedade não os cataloga como inferiores ou diferentes. 

O meu primeiro contato com o trabalho de Bagno, deu-se no ano de 2016, quando li pela primeira vez seu livro "preconceito linguístico", onde autor apresenta seu estudo acerca de como dá-se o preconceito com a fala do outro no Brasil. Seu livro apresenta uma visão abrangente de como as pessoas sofrem com estigmas perpetuados pelo senso comum dentro da sociedade: que somente o português de Portugal é correto; que o linguajar do interior é "caipira" e "antiquado" ou "incorreto"; que os gaúchos são os únicos brasileiros que falam o português quase que de "forma correta", dentre outros. Neste livro, nota-se que todo o seu trabalho na área de línguas transformou-se em uma novela espetacular, onde o leitor pode ver a si mesmo naquelas situações, tanto na situação de quem recebe o julgo, quanto na situação de quem se acha no direito de agir como juiz na fala do outro. O livro é uma opção palpável, existente e urgentemente recomendável para estudantes do curso de letras, para fãs de uma boa novela com uma dose de humor na medida certa, e claro, para todos os que sofrem com o estigma diário de ter que lidar com comentários irrelevantes acerca da forma como falam. 

Marcos Bagno é professor de Lingüística da Universidade de Brasília (UnB), escritor e tradutor, com dezenas de livros publicados no campo da sociologia da linguagem e do ensino de português, além de obras dedicadas ao público infanto-juvenil, diversas delas premiadas. Desde a publicação de A Língua de Eulália, em 1997, seu primeiro livro no campo da educação lingüística, vem se tornando um dos lingüistas mais conhecidos do Brasil, devido à sua militância contra toda forma de exclusão social por meio da linguagem e a favor da valorização de todos os múltiplos modos de falar. Também atua na pesquisa e na proposta de novos caminhos para a educação em língua materna, com ênfase nas noções de letramento e de reeducação sociolingüística.

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