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[RESENHA #296] A vida em espiral, de Abasse Ndione

quarta-feira, fevereiro 20, 2019

/ by Vitor Lima
Foto: DIVULGAÇÃO/Aborto literário

A vida em espiral é a história de um motorista de táxi e de sua fulgurante carreira como traficante de maconha. Amuyaakar Ndooy e seus quatro amigos são inseparáveis, e passam a maior parte de seu tempo fumando yamba (maconha), bebendo e filosofando sobre a vida. Depois de uma gigantesca operação policial antidroga, a yamba vira produto escasso e Amuyaakar resolve se tornar sipikat (traficante de maconha), uma escolha que o levará para um caminho cheio de perigos e obstáculos de todos os tipos e que acabará mudando para sempre o destino dos cinco amigos. A vida em espiral é um verdadeiro on the road africano, que descreve sem falsos moralismos, a corrupção, a pobreza, as injustiças e a falta de horizonte dos jovens senegaleses. No entanto, é uma história regada de ironia e dominada por um surpreendente otimismo. Esses elementos são entrelaçados através de um mecanismo narrativo perfeito e de uma linguagem extraordinariamente expressiva.

Amuyaakar Ndooy, o jovem herói deste romance singular, é um motorista de táxi da Sociedade de transporte Cabo Verde, satisfeito com seu trabalho, cujas receitas modesta permitir-lhe para sustentar sua família e levar uma vida mais ou menos regular que começa às seis todas as manhãs. Ndooy é um jovem que é o conteúdo da rotina diária, dia a dia viver sem ilusões, mas também consciente da sorte de ter, graças ao seu velho Simca, o privilégio é tudo relativo para alimentá-la e ser capaz de pagar até mesmo algum pequeno prazer. Um privilégio não apenas em um país Africano como Gambia, cunha fina cercada pelo maior território do Senegal, que sofrem de pobreza endêmica atormentado pela seca, fome e epidemias, e muitas vezes só sobrevive graças à ajuda dos países ricos.

Mas esse quadro regular e decente de vida é o contorno da superfície do protagonista do livro, o fato central é que Amuyaakar Ndooy é um fumante apaixonado e convicto "Yamba", a erva mágica que transforma a mente e fantasia, grama que ilumina a inteligência e estimula a ousadia, a grama que te faz inspirado e criativo. Pena que a grama em questão é ilegal: é um crime fumar, e crimes muito sérios a expõem. Até que um dia Ndooy é encontrado fumando a erva junto com a gangue de seus amigos. Mas acontece que a seleção nacional de futebol ignora ignominiosamente a partida decisiva da Copa da África contra a equipe da Costa do Marfim. Esta derrota ardente e inesperada tem efeitos devastadores: o técnico da equipe diz à imprensa que seus garotos perderam porque haviam fumado a grama na véspera da partida. Daí o escândalo e o aperto repentino de medidas repressivas por um governo corrupto e incompetente que procura, deste modo, reforçar a sua credibilidade e, ao mesmo tempo dar uma demonstração de integridade e rigor. Assim começa uma verdadeira caça a Traficantes de Drogas, na medida em que o nosso herói e seus amigos encontram-se subitamente pobres ainda mais do que antes e já nem sequer o pequeno conforto e escapar da dura realidade oferecido pela fumaça Yamba. E enquanto a aldeia atingida pela seca cai em uma espécie de letargia dedicando em noites sem dormir para a prática de antigos ritos propiciatórios da tradição animista e está indo para preparar o sacrifício cerimonial de um touro, Ndooy e seus amigos estão condenados à procura de um punhado de grama que acaba por ser infrutífera. O moral vai para baixo a um mínimo e é neste ponto que o nosso herói é resolvido em um passo decisivo: se tornar um "sipikat" um negociante com todos os riscos incalculáveis ​​que isso implica. Iniciar a partir deste momento uma nova vida para Ndooy, repleto de perigos e desafios, uma vida caracterizada por uma pista de obstáculos perene, pontilhada com aventuras ao longo de uma viagem atribulada do ritmo agitado. 



ISBN-13: 9788567861036
ISBN-10: 8567861039
Ano: 2015 / Páginas: 352
Idioma: português 
Editora: Rádio Londres


Podemos dizer que este livro narra a perdição do homem em meio ao encontro das drogas  e do tráfico. Este livro pode ser facilmente considerado uma novela de intrigas, onde o fluxo de consciência e narrativo volta-se inteiramente para a situação de vida do individuo, como se ele não tivesse outra escolha, além de envolver-se de forma tão intensa com o tráfico de drogas. Há diversos debates sobre este tipo de perspectiva de vida, mas não iremos nos ater a elas. O livro é dividido em três momentos distintos, sendo: 1. Drogas, tráfico e perspectiva de melhora de vida; 2. Prisão; 3. Thriller, que é quando o roteiro parte para uma espécie de investigação policial.

Por se tratar de um enredo construído sob as leis e realidade do Senegal, eu jurava que este livro seria algo imperdível, mas não é. Aparentemente o consumo de drogas, a realidade dos mais pobres, a propina, a vida no crime para o "sustento" como ultimo recurso, é igual em todos os lugares. Claro que existem partes e divisões que deixam a narrativa claramente mais interessante, como as diferenças culturais existentes na obra, onde podemos notar costumes do cotidiano, religião, tradições e outros dados relevantes que tornam a obra mais intensa e interessante de se ler. Há fome, há desespero e não há visão ou possibilidade de melhora do quadro social, o que obriga nosso protagonista abandonar seu trabalho para começar a vida no tráfico, já que ele não quer ver sua avó, filho e a irmã passando fome. Em suma, este enredo pode ser subdividido em três partes: 1. Fome, miséria, 2. Vida no crime, 3. Reflexões e considerações finais.

O livro basicamente torna o protagonista o herói sem recursos, mas não para mim. A leitura é fluida, o livro é realmente interessante de se ler, explorar e analisar, mas o enredo não é tão impressionante quanto pensei que fosse. Há momentos em que torcemos para que tudo ocorra bem para nosso protagonista, mas há também momentos onde você pensa: que diabos ele está fazendo? Também deve se considerar o enredo muito bem escrito com tons de investigação policial e um clima super intenso no ar. 


ABASSE NDIONE nasceu em 1946, em Bargny, um povoado próximo de Dakar, capital do Senegal. É considerado um dos escritores mais representativos da literatura africana contemporânea. Trabalhou por mais de trinta anos como enfermeiro, período em que se manteve fiel à terra de origem e longe do ambiente da burguesia intelectual urbana, cultivando sua paixão pela escrita e trabalhando, de forma incessante, no texto de A vida em espiral, que foi publicado em 1985, com retumbante sucesso.

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