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[RESENHA #298] Viva a música, de Andrés Caicedo

Um romance surpreendente por sua consistência narrativa e ritmo transbordante

quarta-feira, fevereiro 20, 2019

/ by Vitor Lima
Foto: Chimarrão literário / DIVULGAÇÃO

Viva a música! é a história da viagem iniciática da adolescente María del Carmen pela cidade de Cáli, uma Cáli apocalíptica, tropical e alucinada, fruto do prodigioso imaginário literário de Andrés Caicedo. María é uma garota de classe média, é “loira, loiríssima”, orgulhosa da própria beleza e de seu cabelo comprido, possuída por uma energia vital inesgotável, determinada a não abrir mão da própria liberdade, apaixonada pela salsa, o rock, as baladas, por garotas e garotos, pelo álcool e as drogas. A poderosa voz de María é o fio condutor do livro através de um monólogo excessivo, surtado, com letras de músicas misturadas com suas reflexões e contrareflexões, e acompanha o leitor em um verdadeiro tour de force, sem lhe dar tréguas até o final, em um crescendo cada vez mais autodestrutivo mas profundamente tocante. Há violência, há suicídios, mortes, gangues, baladas e mais baladas. No entanto, é uma voz sempre lírica, nunca vulgar, pela qual será impossível não se apaixonar.


ISBN-13: 9788567861012
ISBN-10: 8567861012
Ano: 2015 / Páginas: 224
Idioma: português 
Editora: Rádio Londres

Este é mais um daqueles livros onde o autor propõe a mesclagem de sua vida pessoal com o fictício. Para ser sincero? Eu adoro este recurso descritivo, não somente pelo fato de ser apaixonado por biografias, mas por poder ter a chance de compreender com mais eficacia o desenvolvimento do foco e clímax narrativo sob a visão do autor. Impossível fazer uma separação daquilo o que é ou não ficção. Andrés viveu pouco, escreveu muito e ficou marcado por seu ritmo desacelerado e eletrizante ao mesmo tempo, dono de uma escrita fabulosa e de uma imensa contribuição literária. Viva a música é um livro poético, suas linhas iniciais provam o que digo. Li este livro ouvindo uma sinfonia de Beethoven para testar a fluidez, e caiu como uma luva. Nunca me imaginei lendo um livro com uma trilha sonora, mas este casou bem.

Rock ou salsa? ou ambos? Um roteiro que gira em torno de um país quente, onde a música e a dança fluem como os pássaros ao cantar pela manhã: Cali, Colômbia. O ano? Anos setenta, pouco depois da chamada "anos dourados".A leitura flui como uma dança de salão: quente, rítmica, direta, fluída. O enredo convida-nos a destrincha-lo em meio a suas provocações fragmentadas, para que possamos transforma-la em uma desfragmentação histórica, onde cada folhear de páginas tornar-se único.

Ben, em vida, abandonou o seu trabalho e escreveu um único romance, este, do qual falo. Há um trecho que casa perfeitamente com sua vida e enredo, sendo este:

❝Se você sair do trabalho, morra em paz, confiando em alguns bons amigos. Nunca permita que eles o transformem em uma pessoa mais velha, um homem respeitável. Nunca deixe de ser criança, mesmo que tenha os olhos na parte de trás do pescoço e os dentes começarem a cair. Seus pais tiveram você. Deixe seus pais alimentá-lo sempre e pague-os com dinheiro ruim. A mim que. Nunca salve. Nunca se torne uma pessoa séria. Faça o seu comportamento norma de impensado e contradição. Eliminar tréguas pegar sua casa em danos e excesso. Tudo é seu. Você tem o direito de tudo e pode cobrar caro. ❞

O enredo desta obra trabalha com o sentimento de liberdade, de sentir-se bem consigo mesmo e com nossa história. Aqui, entenderemos suas nuances e preocupações e sua sutileza com a escrita. O livro é uma narrativa impecável em diversos sentidos, sente-se a música, o enredo, o quão palpável é. Esta história realmente foi escrita pensando em sua particularidade que lhe é nitidamente livre. Um homem que viveu pouco, mas viveu o suficiente para provar que os melhores momentos estão naquelas oportunidades que muitas das vezes deixamos passar. Ah, e não, de forma alguma, este livro não tem um tom fúnebre ou algo do tipo, na verdade, nunca me senti tão vivo ao ler um livro.


Andrés Caicedo, que já foi chamado de “precursor de Roberto Bolaño” e de “Kurt Cobain da literatura colombiana”, nasceu em 1951 em Cáli, na Colômbia, onde morou até a sua morte prematura em 1977. Em sua curta vida, escreveu dezenas de artigos sobre cinema, várias peças de teatro, roteiros, novelas, inumeráveis contos e um único romance. Em 4 de março 1977, com apenas vinte cinco anos de idade e logo depois de receber a primeira cópia impressa da sua obra prima, Caicedo se suicidou, deixando a literatura latino-americana órfã de um de seus talentos mais originais.

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