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[RESENHA #299] Cores de Indochina, de Marcos Torres

quinta-feira, fevereiro 21, 2019

/ by Vitor Lima
Foto: PENALUX/DIVULGAÇÃO


A literatura tem asas,mas não tem fronteiras. [....] A uma cultura tão pouco familiar ao Ocidente, nós leitores conseguimos nos transportar ao universo do protagonista Thoth Zehuti, um filósofo e professor deslocado no mundo, um andarilho errante dotado de certa misantropia que vagueia como um moribundo, na esperança de encontrar uma melhor disposição para enxergar a vida, ou um lugar para chamar de pátria e sobreviver com o mínimo necessário.... Assim, ele se dirige para o Vietnã, Camboja e Tailândia, atraído pelos contrastes dessa cultura milenar: uma natureza tão exuberante,com seu povo historicamente reprimido e sofrido. [...] A narrativa entrelaçada com micro-histórias e micronarrativas, em meio a um enredo costurado com dores e perdas, memória e esperança, nos descortina o cenário de uma cultura ímpar, além de nos causar inquietação e nos fazer refletir sobre o destino da humanidade em vários aspectos: político, religioso, ideológico, cultural. Uma leitura envolvente, que com sua narrativa não linear, nos faz perceber que “a vida nem sempre é uma sequência cronológica de eventos e acontecimentos, tal como queremos”, como sinaliza Thoth. Boa viagem!

A ausência de sociabilidade de um protagonista que decidiu organizar sua vida e horizontes pela Indochina.Indochina é uma região do sudeste asiático, entre o leste da Índia e o sul da China. Inclui o Vietnã, Laos, Camboja, e às vezes, Tailândia e Myanmar, antiga Birmânia. O livro é catalogado em forma de diário de bordo, onde o autor, super ágil com as palavras, consegue introduzir o interlocutor em suas aventuras entre a Tailândia, Camboja e Vietnã. Locais com uma pluralidade tão singular com relação aos povos, cultura e história. A história é narrada em primeira pessoa, em primeiro momento, podemos achar que o autor está dividindo suas experiências, mas ele apenas está registrando, afinal, como dito anteriormente, ele não é nada sociável.

Sou um egoísta e estou falando para mim mesmo.


Algo extremamente interessante é um apontamento feito pelo autor já na primeira página desta obra, aqui, ele deixa claro que não pretende falar nenhuma língua de forma fluente, visto que a comunicação existe em suas diversas vertentes, mas ainda assim as pessoas insistem em tornar o campo social inabitável, onde a guerra, desordem, fome e cotidiano geram uma imensa onda de problemáticas. Para ele, a violência começa pela linguagem. E ele está completamente correto com relação a isso. Este livro é o registro de quem decidiu viver ao invés de acrescentar indagações e problemáticas em seu caminho.

A violência já começa
pela linguagem.

Thoth Zehuti, nosso narrador, é filósofo. Me pergunto se todas as indagações e questões propostas por ele na narrativa são frutos de sua formação ou mera coincidência. Abandonado pela mulher e trabalhando em uma revista, Toth decide tomar uma rota sem rumo, mas que aos poucos vai tomando as cores e formas da Indochina, onde ele consegue tirar diversos ensinamentos que vão se acentuando conforme ele descobre novas culturas e povos. A principal questão que surge nestas viagens é o fato da escolha do roteiro, afinal, alguém que está desiludido com a sociedade, com o ser humano e com a própria vida, teria optado por uma rota mais agradável. Indochina é agradável, mas historicamente é uma região de guerras, desentendimentos e intermináveis problemáticas sociais, o que só aumentaria o ódio de Thoth pelo ser humano, ou seja, a viagem só culminaria na certeza de que sua ideia acerca da humanidade está mais do que correta, quando deveria caminhar para o lado oposto, o fazendo enxergar a vida por uma ótica mais clara, porém, estas são minhas considerações iniciais, é claro que há muito há se comentar por entre esta narrativa.

“Quero fugir, eu quero. Ficar longe por algum tempo deste mundo entorpecido e abjeto, eu quero. Continuar a empreender uma longa viagem sem rumo definido nem parada obrigatória, sem data para regressar. Ou talvez não mais regressar. Preciso procurar uma melhor disposição para ver o mundo, apreciar as paisagens, contemplar o sol escondendo-se atrás dos rochedos para além das colinas. Visitar espaços menosprezados pelo espetáculo da modernidade e pouco explorados pelos sonâmbulos vagando em todo o mundo.” (p.100)

Este livro é um livro de ensinamentos. Aqui, temos alguém que encontra-se desiludido com a vida, mas que encontrará - ainda que em um cenário com uma história extremamente sofrida - uma cultura, um povo e uma série de ensinamentos que jamais pensou em ter. Verá que a fome existe para todo lado, mas que a vida segue. Verá que existem pessoas boas por todos os lados e que a reflexão acerca da conduta humana é particular e não deve ser vida de forma tão abrangente, em outras palavras, aprenderemos com este personagem que grandes metrópoles com barulhos extremos, trânsito caótico e fome excessiva, ainda assim, poderemos encontrar um sentido em tudo. Aproposito, há um sentido na vida, e cabe a nós dar um novo sentido quando nada mais faz sentido.

“O que eu estava fazendo naquele lugar? O que estava procurando? Só eu sabia bem no íntimo de minha alma o que tudo aquilo significava para mim. Queria ver algo diferente da cultura ocidental. Encontrar um lugar para me aquietar e tentar sobreviver com o mínimo, acompanhado de uma certa misantropia. Interessava-me saber o que acontecia para além dos outros oceanos, para além dos costumes burgueses e excêntricos. Queria conhecer parte dos lugares cujos processos culturais e históricos foram apagados de uma forma ou de outra, por desinteresse, pela falsa burguesia, pelos falsos humanistas, pelas civilizações hegemônicas e segregacionistas, como se esses povos fossem lunáticos e canibais, povos bárbaros vivendo em algum lugar fora da órbita da terra. (p.98)

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