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[RESENHA #300] Arame Farpado, de Lisa Alves

quinta-feira, fevereiro 21, 2019

/ by Vitor Lima
Foto: PENALUX/DIVULGAÇÃO


Lisa Alves compõe um livro de poemas dividido em seis partes: Do eu, Dos territórios, Da dominação, Da vindicta, Das contradições e Da poesia. Essas partes formam uma espécie de tratado sobre a nudez e o cárcere do homem de todos os tempos, assim como um estudo detalhado da matéria inorgânica que rodeia esse ser tão próximo à aberração. Nada foge ao olhar arguto e ácido dessa grande escritora. Não encontramos um livro propício para uma tarde de domingo, seus textos têm a densidade e o peso das madrugadas insones.
Como explicar um ser que não é para o que veio?

Eu era a voz que me tomava enquanto eu lia estas páginas. Eu era o som que ouvia e que rugia de dentro para fora a cada folhear e a cada linha lida. Eu era o reflexo do vão, do necessário, do aqui e do agora. Eu era, e talvez eu sempre soubesse que sempre fui, o tudo que rege aquilo ao qual eu me entrego. Eu me proponho a me ler diariamente e descobrir em mim a química orgânica de meus sentimentos e de minha missão. Me senti indigesto diante da escrita de alguém que desnudou os sentimentos de um alguém que sabe - e sente - ser mais do que poeira neste universo.

Eu era todos: o carbono, o silício e a saliva
fluída da boca esfomeada ou gananciosa.
Eu era a fila para lugar nenhum e o orifício certeiro.
Eu era a multidão.

Este livro me foi apresentado durante um período muito específico em minha vida. A escrita de Lisa, cujo sobrenome é o mesmo do meu - Alves - é precisa naquilo o que se propõe a cada escrita. A forma com a qual conduz a vida, o cotidiano e a existência em suas linhas, é como se conhecesse bem a liquidez do sentimento social, é como se estivesse prevendo as nuances que ainda não vieram, é como se pincelasse os sentimentos como se eles fossem fumaça no céu, como se eles fossem temporários. Uma escrita que nos apresenta a possibilidade ser quem somos de um jeito só nosso, sem paradoxos ou impedimentos, sem medo ou incerteza. Lisa nos apresenta a visão de que o sangue que corre em minhas veias, tem a temperatura dos trópicos, dirige-se por canais de liberdade e deságua no oceano da coletividade.

Não há como resenhar esta obra. Eu menti no título, eu não conseguiria colocar em palavras o que sinto sobre esta escrita. Nada do que é técnico com relação a capa, escolha do título ou de seu pacote é possível descrever. Aqui, existe uma infinidade de sentimentos sob os quais eu me debruço sob as estórias da vida bélica; sob as direções que tomei ao me perder de mim mesmo; sobre os encontros que tive com Deus nos muros, nas grafites das ruas e na ausência do chão. Eu caí por diversas vezes, e quase sempre, me via sem uma mão para me ajudar a levantar em meio a um buraco vazio. 

Há em Lisa, em sua escrita, e naquilo o que ela tem a nos dizer em suas 118 páginas de sua obra, um parecer crítico, ideológico, sentimental, direcional e reflexivo. Há mais do que um misto poético de críticas ao mundo contemporâneo, ao comportamento social ou a forma com a qual lidamos com a vida. Há muito mais do que um envolvimento sentimental em suas linhas, há vida, há sentimento, vontades, desejos e sonhos. Há em seus manuscritos sentimentos que almejam ser saciados, vontades que exigem serem provadas e dores jamais curadas. 

Entre a sede e o vício
fico com a boca estéril
e o estômago vazio.

As ideias aqui centradas desnudam apenas o homem como um todo, mas repudiam suas atitudes. Uma militância por página, uma vontade de provar-se a cada linha, a cada suspiro. Lisa, teus escritos me tomaram de súbito, e os teus pensamentos tornaram-se minhas reflexões nas madrugadas. O arame farpado ao qual estou incluso, neste mundo que gira e não para, tornou-se minha residência fixa. Talvez sempre tenha sido, mas eu nunca o percebi. Tornou-me sensível a tudo o que toco, tornou-me coadjuvante e não platéia, tornou-me vida e não passageiro, tornou-me rota e não roteiro, tornou-me silêncio e reflexão. 

Antes que seja tarde,
alargue a porta e navegue o mundo!
(Araxá, 1981) mora no Rio de Janeiro.Faz parte do conselho editorial da revista Mallarmargens, coedita a Liberoamérica (Espanha) e resenha livros para a revista Incomunidade (Portugal). Tem textos publicados em diversas antologias, revistas, joranis e págrinas literárias no Brasil, Argentina, Uruguai, Espanha, Inglaterra, Moçambique, País Basco e Portugal. Teve trabalhos expostos no festival de vídeo arte "Bang" de Barcelona (2014), participou da Bienal do Livro de Brasília (2016), das exposições de poesia:"Poesia Agora" da Caixa Cultural do RJ (2017), "Semana das Artes em Maputo' (Moçambique, 2018) e "Poesia Livre: Poetas contra opressão" no Centro Cultural do Nordeste de BH (2018). Participou da mesa "Amor entre iguais: a diversidade afetiva nas narrativas contemporâneas" da "Livre - Festival Internacional de Literatura e Diretos Humanos" em Brasília (2018).

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