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[RESENHA #302] Teatrauma, de Bruno Candéas

Teatrauma traz a tona o sentimento de descompasso cotidiano ao qual somos imersos

quarta-feira, fevereiro 27, 2019

/ by Vitor Lima


CANDÉAS, Bruno. Teatrauma. Editora Penalux, Guaratinguetá, SP: 2018, 64p



A poesia de Candéas é “desproteção”, o poeta estando “no meio da pista”, está, por isto, sob a mira de incontroláveis acontecimentos, sujeito aos desfechos imprevisíveis do mundo, assim sendo, o poeta está como se nu, a mercê da degustação advinda de suas experiências.
                Todos os tipos de sina são como possibilidades em ebulição, “os amigos que estão foragidos,” os desejos do poeta, que estão falidos, “queimando”, a vida é tudo isto, é um aglomerado de “voos insanos”, cujos conhecimentos, dores, e alegrias, são transmitidas por todas as gerações, pois no fim das contas, o ser humano é “descendentes de guerras, “dos tremores da terra”.
                Além de herdar as calamidades do mundo, como filho que não pode renunciar a sua carga genética, ao poeta resta continuar, em um eterno ciclo de “começar de novo”, reconhecendo que as experiências, as lágrimas, o ódio, o amor, constituem, na verdade, a própria essência da alma, pois é no “porre,” é no sexo simbolizado pelo órgão sexual”, é na precariedade da prostituição, são nos protótipos, nos rótulos, que são moldados a identidade humana, ainda que caoticamente.
                Todas as fragmentações, os rótulos, as identidades confluem na formação de uma unidade, pois existe a universalidade de todas as coisas, mesmo as singelas, ou seja, acontecimentos singulares, simples, corriqueiros, são amarrados e vinculados a uma comoção de escala global, planetária,  pois todos estão unidos, numa sina semelhante, assim sendo, a desgraça dos pequenos é a história trágica da  “congênita”, e “cênica”, humanidade.




Teatrauma é a ressignificação de tudo o que a vida é: um trauma. Certo de que teatrauma é a junção das palavras: teatro e trauma, podemos inferir que a palavra teatro vem do latim Theatron, literamente "lugar para olhar", de "theasthai", "olhar", mais -tron, sufixo que denota "lugar". O teatro é uma forma de contar histórias e transmitir valores através da representação da vida real por meio da arte dos palcos, assim como a contemplação de sentimentos e vivências próprias ou alheias. Desta forma, podemos entender bem o contexto descrito pelo autor Bruno Candéas. Aqui, o autor usa de sua prosa e vivência para criar uma série de 36 reflexão acerca da sociedade contemporânea e de suas problemáticas. Não há como fugir ou negar, Candéas possui uma forma interessante de transmitir ao leitor sua insatisfação com determinados cenários, sua infelicidade, dor e todas as suas reflexões.

O livro inicia-se com uma reflexão acerca dos constituintes de uma sociedade: o povo. Bruno abre sua escrita com a reflexão de que o povo está sempre disposto a começar de novo, não limitando-se aos problemas impostos pela realidade, vida ou acaso. Aqui, sua visão alonga-se pelas intempéries nas quais somos submetidos, onde não há muita saída de vida ou perspectiva, quando nos diz em seus versos que o povo tem uma "alma que não declina", "sangue que nunca escorre". 

olá meu nome é povo
(...)
alma que não declina
(...)
sangue que nunca escorre

Mas esta obra não retrata apenas as problemáticas sociais existentes, o autor denuncia em suas linhas àquilo o que deveria ser problematizado, estudado, observado, reelaborado ou reinventado. Existe aqui uma preocupação com relação a visão que as pessoas possuem do mundo, de si próprias e da forma com a qual levam suas vidas no campo social e pessoal. O poeta, em si, é repleto de inquietações, escreve sobre aquilo o que gostaria de mudar, o que não necessita de mudança e até mesmo das problemáticas que ele mesmo cria. Candéas não é diferente, sua narrativa difere-se pela preocupação altamente diluida no social pessoal, que é quando o autor em questão preocupa-se com as questões ligadas ao indivíduo que constitui a sociedade. Nota-se que a crítica presente nas linhas do teatrauma estão voltadas unicamente para uma reflexão interiorizada do autor para com cada pessoa. Afinal, como se é de saber, é impossível mudar a sociedade sem que se mude a si próprio, afinal, a mudança começa por nós, dentro de nós.

Não é comum observar em narrativas poéticas preocupações com o social, não da forma como está exposta nesta obra. Estou habituado a ler poemas que falem de relacionamentos, da convivência a dois, dos problemas que cada um enfrenta dentro de si, mas nunca dos reflexos de sua personalidade, desejos e ambições. Observo este livro como quem observa a vida passar pelos olhos e registra absolutamente tudo: o que quer mudar, ver, desejar, sentir, prever, tocar e refazer. Certa vez, disse o poeta Fernando pessoa: Eu sou do tamanho daquilo o que vejo, e não do tamanho de minha altura. Reflito. E se aquilo o que vemos pudesse ser exteriorizado para ser reflexo de outro? E se aquilo o que contemplo e observo puder ser contemplado e observado por outras pessoas? Agora uma pergunta menos animadora: e se todos forem capaz de ver o que vejo e não tomarem partido? Cabe a nós, tornar palpável a problemática que todos devem ler, ver, tocar e refletir. Candéas nos propõe ler acerca do campo social e dos sentimentos que exteriorizamos. Propõe reflexões acerca da vida cotidiana e da caminhada que iniciamos dia após dia.

a vida escorre sem imprevistos
(...)
por vezes troca de lugar com a morte

A escrita é leve e precisa, o que facilita - e muito a leitura - a linguagem é acessível de uma forma que não sei explicar. Ou talvez, eu só tenha me identificado muito com a obra por tratar de coisas das quais eu sei que faço parte: vida, decisões, cotidiano, sociedade. Não há muito o que falar sobre esta obra, ela já fala por si própria. Talvez lê-la seja insuficiente para compreender sua totalidade, digo - e atrevo-me a dizer - que talvez, só talvez, nunca se conseguirá extrair com exatidão tudo aquilo o que este livro tem a nos dizer.

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