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[RESENHA #306] Filosofia do cotidiano, de Luiz Felipe Pondé

“O cotidiano nem sempre é tomado apenas por questões profundas. E nem só delas vive o homem, mas também de banalidades. Muitas vezes, ele é tomado por questões ‘menores’, e é a elas que nos dedicaremos aqui. O cotidiano tenderá a ser mais pobre no futuro. Mais entediante e previsível. Refletiremos sobre pequenas questões neste livro.” - Luiz Felipe Pondé

sexta-feira, março 01, 2019

/ by Vitor Lima
“O cotidiano dos homens em relação às mulheres também alimenta um grau razoável de miséria. Se uma face significativa do cotidiano da miséria da emancipação feminina é a solidão associada à independência, a do homem habita a insegurança e a covardia, frutos dos novos papéis e do sucesso das mulheres no mundo do trabalho”. (p.75)

PONDÉ, Luiz Felipe. Filosofia do cotidiano: Um pequeno tratado sobre questões menores. São Paulo: Contexto, 2019. 128p.

Luiz Felipe Pondé é professor, filósofo, escritor, doutor em filosofia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e pós-doutor pela Universidade de Tel Aviv, em Israel. Frequentemente citado e reconhecido por seus posicionamentos conservadores, Pondé tornou-se referência ideológica, sendo sempre apontado como um dos ícones da direita. 

Em “Filosofia do cotidiano, um pequeno tratado sobre questões menores”, Pondé propõe uma reflexão acerca de nossas atitudes por meio do abandono de nossas crenças, que geralmente, nos conduzem. Aqui, há um paradigma que nos guia para o entendimento além daquilo com o qual estamos habituados, em outras palavras, abandonar nossas crenças requer um despertar do sonambulismo ao qual estamos imersos em nosso cotidiano. Abrir os olhos para as questões menores que nos rodeiam nem sempre é fácil, mas é preciso. Os céticos entendiam que uma vida sem crença era como despertar de um sono dogmático, em outras palavras, pessoas que não andavam na sombra de mitos, alegorias, propagações do senso comum e todo tipo de material produzido pela mídia para manipular nossos pensamentos e concepções acerca daquilo o que vemos, cremos e desejamos, ou seja, pode-se dizer, partindo destes pressupostos, que um cético é alguém desperto, enquanto o crente é visto como sendo um ser aprisionado em um sonambulismo, ao qual, claro, necessita despertar para não viver no modo automático. Modo automático é tudo aquilo que nos impede de enxergar a vida por outra ótica, já que nossas concepções estão todas definidas, tornando outro estilo de vida e crença limitadas ou insuficientes aos nossos olhos, isso nos aprisiona em nós mesmos, nos impedindo de conhecer o novo, a vida e as experiências que dela requer para seguir em frente. A tese aqui não é tornar-se um ateu um um agnóstico, mas ser capaz de possuir sua crença e abrir-se para o entendimento e experimento de outras culturas, opiniões e sensações além das quais você está habituado OU aprisionado.


 A obra continua a debruçar-se acerca de todos os pormenores da vida. A obra é dividida em 24 capítulos, onde o autor mantém seus posicionamentos conservadores ávidos em cada linha descrita. Aqui, nota-se que muito de sua formação filosófica e de suas experiências pessoais de vida formaram parte essencial desta obra, principalmente no tocante do campo social e de toda psiquê em torno da capacidade humana. No quinto capítulo desta obra, intitulado "Família, filhos e pais", Pondé debruça-se sobre questões relacionadas ao conceito de família na contemporaneidade e critica de forma clara e objetiva as universidades e as mídias que tentam de alguma forma "maquiar" o conceito de família. Pondé declara de forma enfática que que o funcionamento da família dá-se por intermédio da participação ativa do pai e da mãe, mas que isso não é garantia de funcionalidade ativa livre de problemáticas, mas que estes problemas são ainda mais frequentes em famílias onde existe apenas a participação de uma parcela da criação, em outras palavras: pais ou mães solteiras. Este capítulo debruça-se sobre as teorias que formam a família atual, refletindo acerca de questões que influem de forma direta no comportamento do pai, da mãe ou dos filhos. O que o autor considera um pormenor neste livro, não é tão menor assim, ou seja, todos os seus capítulos falam de uma parte de nossas vidas e discute uma pauta visível, mas não tão discutida. Talvez, seja menor pelo fato de muitos não se aterem a discussões em torno destas pequenas crises que constituem a vida cotidiana. 

Filosofar nunca foi sobre deixar você feliz. É que andam mentindo muito por aí. Filosofar está mais ligado ao despertar do sonambulismo. Essa é minha proposta nesta conversa com você (p.15).

De fato, o autor nos atenta para o correto: as reflexões dispostas nesta obra são amargas para a maioria, pois elas confrontam a conduta de cada um em particular. A conduta do pai, do filho, da mãe, da família como um todo, da sociedade e das engrenagens que fazem com que tudo flua no decorrer dos dias. A maioria de nós se empenha para que alcancemos determinado status na sociedade, no trabalho ou até mesmo na própria família, para o autor, isto é perda de tempo, o fracasso sempre dará um jeito de encontrá-lo, o que você precisa é de viver sem fórmulas, este é o desafio. Afinal, quem tem medo de sofrer é incapaz de desejar

Existe algo de muito interessante na escrita de Pondé, a primeira, talvez, é a forma com a qual usa de seus argumentos para criar uma linha de raciocínio entre um capítulo e outro, tornando a leitura algo que flui de forma clara. Os posicionamentos que envolvem a sociedade, família e o indivíduo são todos voltados para valores e posicionamentos conservadores, sempre deixando claro a ideia de que os valores e costumes de hoje em dia jamais poderão se equiparar aos valores de outrora. Os homens hoje em dia não sabem lidar com as mulheres, os jovens estão cada vez mais tristes e depressivos, a sociedade está cada vez mais caótica e o intimo de cada um está cada vez mais previsível, visto que as problemáticas estão cada vez mais comuns — este aviso nos é advertido na abertura da obra. 

Algumas citações marcantes (e polêmicas) desta obra:

É uma delícia almoçar com colegas de trabalho mulheres. Ouvir as risadas delas, observar suas pernas e seus saltos. Não sou contra a emancipação feminina. Só loucos são. As mulheres encantam o mundo do trabalho e são competentes como qualquer homem (p.71)

A verdade é que temos criticado sistematicamente a família há mais de 50 anos, e, por exemplo, políticos que falam em “valores familiares” são execrados como reacionários. A crítica mais comum é dizer que a “família patriarcal” é isso e aquilo (p.37)

A prosperidade é algo a ser buscado, sem dúvida. A vida na pobreza material é um inferno (p.111)


Mas, e ai, o que se pode aprender de concreto nesta obra? Os posicionamentos céticos e conservadores de Pondé vão de encontro a todas as esferas sociais, vez que, todos os capítulos de sua obra abrangem a totalidade do seio social. Através de uma proposta de performatividade, o autor propõe que o leitor imponha-se de forma clara e objetiva em tudo o que se propor a fazer, seja na família, no trabalho ou no particular de sua vida. Não há máscaras, Pondé é conhecido por ser direto em seus posicionamentos, então é comum encontrar nesta obra todo seu sarcasmo e ironia com relação a alguns assuntos, o que pode causar estranheza no leitor que não estiver apto a ler suas obras ou assistir suas palestras. Acima foram citadas algumas passagens marcantes da obra, todas elas possuem um contexto, e claro, não devem ser interpretadas separadamente, usamos elas apenas como válvula de escape, para que o leitor empenhe-se em entender toda a ideia expressa pelo autor. O mais interessante nesta obra é a forma como Pondé conduz sua linha de raciocínio, é comum que ele faça constantemente paralelos entre o contemporâneo e as contribuições dos grandes filósofos que fizeram parte de sua formação, isso enriquece ainda mais a leitura desta obra. A síntese desta obra é bem parecida com a ideia de ação proposta pelo autor em sua obra “Filosofia para corajosos”, onde o autor propõe uma metodologia que ajude o leitor a pensar com a sua própria cabeça, ou seja, tornar o leitor menos alienável com relação aos velhos costumes do senso comum. PENSAR, ENXERGAR OS PEQUENOS DETALHES, PLANEJAR, AGIR, MUDAR. São passos que não são descritos, mas estão nas entrelinhas. Uma proposta realmente fantástica em diversos sentidos.

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