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[RESENHA #308] A dupla vida de Dadá, de Moema Vilela

segunda-feira, março 04, 2019

/ by Vitor Lima
Foto: Penalux/Divulgação


VILELA, Moema. A dupla vida de Dadá. Guaratinguetá, SP: Editora Penalux, 2018. 72p

SINOPSE: Moema Vilela faz uma escrita plural, cosmopolita, no sentido de conseguir, sinteticamente, trazer para suas formas breves, de minificções, uma abrangente variedade de temas, de personagens, de criatividade. Não existe pudor e limites para os seus “escolhidos”, seus protagonistas, narradores. Uma pomba marginalizada e discriminada, pode ter o direito a contar a sua história, o menino que é técnico de informática, a mulher que em meio a folia perde o seu sentimento de vergonha. Esta flexibilidade e, esta quase ambição, atenderam e cumpriram o desafio de mostrar quantas são as vozes no mundo, e como elas podem, ser percebidas na simplicidade das narrativas breves. Este livro é fascinado por temas e várias perspectivas, permeado por intertextualidades. Alguns dos seus contos curtos, são tão incomuns que chegam a falar até mesmo das sopas, mas não de maneira ingênua, e sim, aproveitando a inusitada protagonista para ensinar ideias, teorias criativas e distintas, neste caso, “a sopa” pode referir-se ao processo de produção de textos, “casca-se ali, corta-se aqui, mistura-se tudo”. Este toque flexível, humorístico, grave e plural demonstra que, muito se pode falar, desde que se observe o andamento da natureza e do mundo, sendo que, tendo esta ideologia em mente, alcança-se os mais diversos objetivos: traz-se alegria, reflexão, crítica e opinião.

A dupla vida de Dadá é um livro de microficção escrito por Moema Vilela e publicado pela Editora Penalux. O livro é uma narrativa extensa em seu tamanho, mas breve em suas descrições separativas. Aqui, a autora usa de toda sua carga literária e experiência com grandes autores para criar uma série de ligamentos intertextuais. A narrativa desta obra configura-se nas pequenas e breves linhas acompanhadas de seus títulos mais que instigantes. O título? Referência a uma grande figura do sertão, Dadá OU Sérgia Ribeiro dos Santos, que foi a única mulher a usar um fuzil no bando de lampião, onde acabou conhecendo seu amante – e marido — corisco, com quem veio a se casar ainda em meio às batalhas.

De dia trabalhou na fábrica de cigarros, de noite posou de modelo para um fotógrafo famoso. (p.45)

A narrativa de Moema Vilela transita entre Greimas; Hermingway e Dadá. Narrativas breves e densas com suas infinitas significações dentro de um quadro variado de intertexualidade. A grande significação das narrativas está em sua capacidade prolífica de narrar uma vida em poucas linhas. As diversas e mais variadas situações cruzam o limite de nossa imaginação, convidando-nos a conhecer mais de toda capacidade descritiva de Moema.

Convencido de que precisava estar triste para poder escrever bem, o escritor visceral parou de escrever, para ficar bem triste (p.31).

Algo comum em todas as suas microficções são as reflexões acerca do assunto ao qual se trata em suas particularidades, somos guiados através de uma linha e outra e levados até a narrativa breve de um mundo, universo e um momento criado ali, naquele instante. Reflexões que saltam das linhas e das experiências com a leitura desta obra.

Algumas passagens interessantes de se serem observadas, lidas e refletidas:

Ele ganhou na loteria, todos o invejaram. Só que por causa da fortuna foi sequestrado e acabou no hospital com um pino na perna (p.36)

É muito diferente punir de perdoar, e diferente penar em um limbo em que não acontece uma coisa nem outra. É muito diferente a justiça. Diferente quer dizer inesperada (p.63)


Antigamente os atletas não tinham frio. Tinham formas esculturadas, pelas quais não competiam, e que se deixavam apreciar mesmo no inverno porque eles não precisavam de manga comprida (p.51)


Por crueldade da memória, ela se esqueceu primeiro do que não gostava (p.25)

Moema Vilela é escritora e jornalista, doutora em Letras e professora de Escrita Criativa na PUCRS. Autora de Ter saudade era bom (Dublinense, 2014), finalista do Prêmio Açorianos de Literatura, Guernica (Udumbara, 2017) e Quis dizer (Udumbara, 2017). Publicou contos, poesias e ensaios em diversas antologias e revistas literárias brasileiras.

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