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[RESENHA #321] Vox, de Christina Dalcher

Vox é o manifesto de Dalcher em prol da democracia. Um enredo rico acerca dos riscos do choque existente entre política e religião

sábado, abril 06, 2019

/ by Vitor Lima

DALCHER, Christina. VOX. São Paulo: Arqueiro, 2018. 320p

Situado em uma América onde metade da população foi silenciada, VOX é a história angustiante e inesquecível do que uma mulher fará para proteger a si mesma e sua filha.

No dia em que o governo decreta que as mulheres não podem mais falar mais de 100 palavras por dia, a Dr. Jean McClellan entra em negação - isso não pode acontecer aqui. Não na América. Não para ela. Isto é apenas o começo. 

Logo as mulheres não podem mais manter empregos. As meninas não são mais ensinadas a ler ou escrever. As mulheres deixam de ter voz ativa na sociedade. Antes, a pessoa média falava dezesseis mil palavras por dia, mas agora as mulheres só têm cem para se fazerem ouvir.  Mas isso não é o fim.  Para si mesma, sua filha e toda mulher silenciada, Jean recuperará sua voz.

RESENHA


Vislumbre define tudo aquilo o que sinto. Após a visibilidade e representação feminina começar a desaparecer de forma drástica no governo e nas decisões politico sociais e o surgimento da chamada religião “pura”, iniciava-se um processo lento, penoso e doloroso de perda de visibilidade social feminina. O governo então, usa-se de seu poder para criar e implementar uma lei que limita a comunicação diária das mulheres à cem palavras. Como eles iriam controlar tal ato? Através de um bracelete de uso obrigatório. O bracelete realizava a contagem de todas as palavras ditas e aplicava severas infrações a todos os que ultrapassassem este limite. Jean, professora de linguística entra em um estado de preocupação, afinal, ela como ninguém compreende e entende que é impossível controlar a comunicação das crianças, e que silenciar as mulheres seria algo horrível, já que elas já não tinham mais espaço no seio social. Podemos dizer que este livro é o resumo do patriarcado: o homem reina na política, no social e no religioso, querendo sempre deixar a mulher em segundo plano. O enredo é extremamente politizado com relação a luta feminina ao patriarcado. A escolha do governo em limitar as mulheres à cem palavras, creio eu, que, foi um recurso usado pela autora para realmente definir o quadro no qual as mulheres são submetidas no enredo: SEM PALAVRAS, sem voz, silenciadas.

Dalcher não foi somente sábia na escolha do título de sua obra, também foi inteligentíssima ao criar uma protagonista que trabalha inteiramente com a comunicação, uma linguista. Não há como fugir, esta é a única maneira de viver agora. Como proceder? Se a comunicação foi limitada, de que forma as pessoas irão se expressar? Este é o “x” da questão, não se comunicam. Escrever, acenar ou tentar qualquer forma de burlar o sistema para transmitir uma mensagem é inaceitável e a pena para quem tentar é tão penosa quanto pra quem falar. Jean torna-se definitivamente uma mulher de poucas palavras em busca da liberdade de todas as mulheres, não só em se expressar, mas em voltar à ativa no campo social. A ausência da comunicação feminina neste enredo pode – e deve – ser encarada como um manifesto em prol das mulheres que lutam diariamente por seu espaço, direito e visibilidade.

“Pense em acordar uma manhã e descobrir que você não tem voz em nada.”

Como você se sentiria se acordasse numa manhã e descobrisse que você não tem voz, nem nada? Maridos devem fazer perguntas claras e objetivas, de forma que, a esposa responda com o mínimo possível de palavras para não esgotar a cota diária que se reinicia todos os dias a meia noite, afinal, deve-se tomar cuidado não somente com a contagem do bracelete, mas com o estresse do dia a dia, com os problemas e com tudo o que deve ser dito. Quando Jean estava na universidade sua amiga Jackie a fez pensar nas palavras como sendo uma “permissão esponsal” (fale somente com a permissão do marido/cônjuge) e “consentimento paterno” (falar apenas sob aprovação do pai). Este livro é um grito de socorro, um alerta para “não vão nos calar”.

“Pense em onde você estará - onde suas filhas estarão - quando os tribunais voltarem o relógio. Pense em palavras como 'permissão do cônjuge' e 'consentimento paterno'. Pense em acordar uma manhã e descobrir que você não tem voz em nada.”


Mas é claro que não podemos nos esquecer da religião “pura” que se levanta. Aqui, os homossexuais também tornam-se prisioneiros do Estado, recebendo as mesmas punições que as mulheres, a menos, claro, que escolham ser heterossexuais. Sexo antes do casamento ou casos extraconjugais também são condenados. As mulheres também não podem escrever, ler, trabalhar ou usar o controle de natalidade. Há câmeras por toda a parte, eles estão de olho o tempo todo. Este livro levanta tantas questões importantes e relevantes em relação aos direitos e igualdade femininos, o papel da religião no governo e o direito ao desenvolvimento da fala /linguagem que eu me peguei o tempo todo em indagações: E se fosse eu? Distopias como as de Dalcher nos provocam reflexões estrondosas acerca dos perigos que minam a sociedade.

Opinião: Assim que terminei de ler esta obra eu fui em busca de um segundo posicionamento, de uma outra opinião. Uma amiga compartilhou comigo alguns posicionamentos que ela retirou como lição desta obra. O primeiro pensamento foi o de que o livro era extremamente sexista, excluindo os homens da forma como excluía, fazendo-os parecer completamente culpado por aquela situação, que de acordo com ela, não era problema deles se o governo havia decidido aquilo. Discordei. Claro que existem exceções em todas as áreas de luta social, mas não há como culpar apenas uma pequena porcentagem de pessoas por determinado problema, quando tantas outras possuem algoritmos tão similares, ou seja, não culpar todos os homens pela situação das mulheres nesta obra é querer incluí-las como parte da decisão do governo. Se não posso culpa-los como um todo, então seria errôneo também dizer que quem comete homofobia são, em sua maioria, héteros? Bom, tivemos uma troca de ideias calorosas e concordamos em algumas partes. A distopia criada por Dalcher é incrivelmente cativante, ela consegue criar uma série de conflitos internos e externos dentro do leitor ao pegar-se pensando acerca daquela problemática, é fácil tomar as dores do outro durante a leitura deste livro. Um livro realmente incrível em diversos aspectos, todos merecem lê-lo um dia, nem que seja pra discordar, mas devem lê-lo pra atentar-se, nem que seja por um instante que a voz feminina tem poder e lugar de fala.

Algumas citações da obra:

“- Estamos a um passo de voltar à pré-história, meninas. Pensem nisso. Pensem onde vocês vão estar, onde suas filhas vão estar, quando os tribunais atrasarem os relógios. (…) Pensem em acordar um dia e descobrir que não têm voz em nada.” 

“De repente não me importo mais com o choque ou a dor. Se eu continuar gritando em meio a ela, se mantiver a raiva no máximo, afogar a sensação com bebida e palavras, será que a eletricidade vai continuar a correr? Será que isso acabaria me matando?” 

“- Vai se foder. Ele está com raiva, magoado e frustrado. Mas nada justifica as palavras que saem de sua boca em seguida, as que ele jamais poderá retirar, as que cortam mais fundo do que qualquer caco de vidro e me fazem sangrar por inteiro. - Quer saber, amor? Acho que era melhor quando você não falava.” 

“Não creio que eu realmente acreditasse que isso um dia aconteceria. Acho que nenhuma de nós acreditava. Depois da eleição começamos acreditar.” 

“Estive afastando Steven do pensamento durante todo o dia, e agora a tristeza é desarrolhada e se derrama de mim. Houve muitas vezes em que eu quis culpá-lo, mas não posso. Os monstros não nascem assim, nunca. Eles são feitos, pedaço por pedaço e membro por membro, criações artificiais de loucos que, como o equivocado Dr. Frankenstein, sempre acham que sabem mais.” 


📖📖📖📖📖📖

Christina Dalcher obteve seu doutorado em linguística teórica pela Universidade de Georgetown. Ela é especialista em fonética de mudança de som em dialeto italiano e britânico e lecionou em universidades nos Estados Unidos, na Inglaterra e nos Emirados Árabes Unidos.  Seus contos e ficção aparecem em mais de cem revistas em todo o mundo.   Depois de passar vários anos no exterior, mais recentemente no Sri Lanka, Dalcher e seu marido agora dividem seu tempo entre o sul dos EUA e Nápoles, na Itália. Seu romance de estreia, VOX, foi publicado em agosto de 2018 por Berkley (uma marca da Penguin Random House).

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