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[RESENHA #322] O sal do leviatã, de Alexandre Guarnieri

domingo, abril 07, 2019

/ by Vitor Lima

SINOPSE

GUARNIERI, Alexandre. O sal do leviatã. Guaratinguetá, SP: Editora Penalux, 2018. 108p

O fantástico e perigoso mar sobre o qual viajou Odisseu, Eneias e Vasco da Gama, daquele em que nasceram e reinaram deuses, e onde vivem divinas e monstruosas criaturas, é o objeto artístico do novo livro de Alexandre Guarnieri, O Sal do Leviatã. O autor, já muito bem-sucedido com seu premiado Corpo de Festim, aprimora sua poesia de maquinaria, trazendo a mesma carga de realismo bruto e ordenação. Em seu novo livro, o autor parte em uma peregrinação pela compreensão dos mecanismos marítimos, de modo a tentar encontrar uma gênese mística, que dê ordem ao caos, a qual promete os mitos e as religiões. Guarnieri não deixa de lado seu estilo gráfico de escrever, trazendo materialidade à sua poesia, sabendo ocupar os espaços que as páginas lhe reservam, assim como os oceanos preenchem a Terra. O autor faz uso de ricas e inusitadas metáforas, a partir de um tema que pode facilmente cair nas garras da ingenuidade e senso comum, e completa-as com ritmo e sonoridades precisas. Acompanhado de um sóbrio prefácio da escritora e doutora em Literatura Comparada pela UERJ, Alexandra Vieira de Almeida, O Sal do Levitã produz uma experiência lírica, com sensações épicas, mergulhadas no inovador estilo único de Alexandre Guarnieri.
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RESENHA

 
O sal do leviatã é um livro de poesias de autoria do escritor e historiador Alexandre Guarnieri, publicado pela Editora Penalux no ano de 2018. Guarnieri é prolífico na arte da escrita, tendo conquistado o primeiro lugar no prêmio Jabuti, no ano de 2015, com o título “corpo de festim”, publicado pela Confraria do Vento.

Desenho de Pierre Denys de Montfort (1801)
 representando um Kraken.
Antes de iniciarmos qualquer comentário ou consideração, devemos nos ater à figura principal da escrita de Guarnieri: O leviatã descrito no título da obra. O leviatã é um peixe feroz citado na Tanakh, ou no antigo testamento. É uma criatura que, em alguns casos, pode ter interpretação mitológica, ou simbólica, a depender do contexto em que a palavra é usada. Nas diversas descrições no Antigo Testamento, ele é caracterizado sob diferentes formas, uma vez que se funde com outros animais. Formas como a de dragão marinho, serpente e polvo também são bastante comuns (semelhante ao Kraken).

“Poderás tu, com um simples anzol, pegar o Leviatã,  ou prender-lhe a língua com uma corda?” Jó, 41:1

Guarnieri tece uma linha tênue sem pausa e sem vírgulas em busca de uma compreensão assertiva acerca de uma gênese, de uma capacidade de reconhecimento mítico da vida. Suas linhas trazem uma simbologia e uma carga mitológica extremamente forte, onde podemos notar uma capacidade descritiva que vai além da ótica religiosa de seu protagonista, nota-se que muito de sua formação histórica contribuiu de forma significativa para a delineação de seus versos, há muito que se refletir em seus manuscritos. Guarnieri trabalha não apenas com a capacidade descritiva que a poesia lhe proporciona, mas em cima das particularidades e desdobramentos de sua criação, através da ótica de seu protagonista e das nuances que fazem o sal do leviatã ser incrível de se ler.


Grandes poemas possuem duas particularidades que tornam a experiência do leitor única, sendo ela: a capacidade descritiva do autor com relação ao tema proposto e a profundidade de suas palavras. Guarnieri possui ambas. Nesta obra, o autor consegue trabalhar de forma forte, profunda e impactante. Ter o mar como pano de fundo e como ponto principal de impacto é um risco. Assim como a água não detém controle sobre si, a escrita também não, ambos tornam-se imprevisíveis, mas o resultado é satisfatório.

O que pode se esperar de uma série de poemas que narram de forma objetiva toda uma formação de vida histórica? Há quem diga que conhecer o mar por onde se navega torna a viagem mais fácil, eu diria que quanto mais se conhece de algo, mais cômodo torna-se, pois o hábito nos torna presunçosos diante dos desafios. Mas aqui não há hábito, não há sequer uma zona de conforto, tudo se refaz a cada página, tudo se liga e tudo se agita a cada linha lida. Como lidar com a profundeza das águas, dos mares? Como nadar por entre estas linhas? Este é um desafio que vos faço.

O primeiro Jonas na barriga
Da baleia para roubar-lhe
O próspero óleo, o espermacete,
A cera inteira (para acendê-la),
A alma salgada desentranhada
Da carcaça, até que roubá-las
Seja agradável (abrigo no mar
Gelado), como a turba faminta
De bezerros roubaria das tetas
Ensanguentadas o leite de tantas
Madrastas e amas escravizadas;
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O AUTOR
Alexandre Guarnieri (carioca de 1974) é poeta, historiador da arte (UERJ) e mestre em tecnologia da imagem (ECO-UFRJ). É um dos editores da revista eletrônica Mallarmargens. Lançou Casa das Máquinas (2011), Corpo de Festim (2014), livro ganhador do 57o Jabuti (categoria poesia) e Gravidade Zero (2016).

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