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[RESENHA #330] Kaspar Hauser ou a Fabricação da realidade, de Izidoro Blikstein

terça-feira, abril 30, 2019

/ by Vitor Lima

O que é a realidade? Como a percebemos? De que forma a linguagem nos permite conhecer o real? Neste livro, o professor Izidoro Blikstein – um dos maiores especialistas em Linguística, Comunicação e Semiologia do Brasil – mostra como o que julgamos ser real é, na verdade, uma ilusão. Inspirado pela surpreendente história de Kaspar Hauser, o autor nos revela que, de fato, a realidade é fabricada por uma rede de estereótipos culturais, que condicionam nossa percepção e que são reforçados pela linguagem. Assim, esta obra revisita e discute com profundidade um tema caro a diversas áreas das Ciências Humanas: a relação entre língua, pensamento, conhecimento e realidade.


BLINKSTEIN, Izidoro. Kaspar Hauser, ou a fabricação da realidade. São Paulo: Contexto, 2018. 18 ed. 94p

Kaspar Hauser é um personagem real e enigmático que tornou-se conhecido aos supostos quinze anos de idade na Alemanha, quando apareceu em público em Nuremberg, em 1828. Hauser não se expressa em nenhum idioma devido ao seu suposto isolamento social, o que também lhe prejudicou no raciocínio e a diferenciação entre sonho e realidade. Sua história e seu surgimento repentino e aparente na civilização causou especulações de todos os tipos, tornando sua vida alvo de diversos estudos e biografias. Neste livro, o professor Izidoro Blikstein – um dos maiores especialistas em Linguística – mostra como o que julgamos ser real é, na verdade, uma ilusão. Inspirado pela surpreendente história de Kaspar Hauser, o autor nos revela que, de fato, a realidade é fabricada por uma rede de estereótipos culturais, que condicionam nossa percepção e que são reforçados pela linguagem.

Tendo ciência de que a constituição do sujeito dá-se por intermédio de suas práticas culturais e experiências de vida – o que torna cada sujeito único —, podemos iniciar esta pequena análise afirmando que a não correspondência de Hauser aos preceitos da normalidade socioculturais do século XIX tendeu-se por meio de sua ausência de contato social, em outras palavras, de seu isolamento social e comunicacional. Em 1974, o diretor Werner Herzog lançou uma obra cinematográfica inspirada na vida de Hauser, intitulada: O enigma de Kaspar Hauser. A obra é uma das formas mais emblemáticas e interessantes de se analisar o período histórico ao qual Hauser estava submetido, bem como suas reais dificuldades na sociedade e a estranheza social diante da ausência da capacidade de Hauser em executar tarefas cotidianas consideradas simples.

Confira o Trailer:




Como Hauser é uma personagem que cresceu isolado de ensinamentos básicos, ele terá que passar por um processo de socialização através da linguagem, pela qual, a sociedade de Nuremberg o fará conceber a representação social adequada aos parâmetros aceitos e impostos pela sociedade do século XIX. Como Kaspar “cresceu” em um período onde o evolucionismo e o positivismo encontravam-se em alta, se fazia necessário encaixar em determinados parâmetros de um modelo civilizado.

 

Hauser pode ser ilustrado como uma figura desprovida de identidade, uma vez que sua vida foi privada de uma convivência social. A sociedade do século XIX não reconhece Hauser, bem como ele também não. Inicia-se aqui uma análise através do movimento racionalista positivista e dos erros de organização social fundados em seus princípios. A socialização não é uma decorrência biológica, mas a consequência de um longo processo de aprendizado social, integrando o indivíduo a um coletivo que possuí hábitos e costumes que formarão o seu caráter, postura e práticas culturais. Através deste processo de socialização o indivíduo se integra e passa a conhecer costumes e características, valores, normas e costumes de forma que reprima todo e qualquer comportamento que não seja considerado comum ou normal para a sociedade do século. Sendo assim, podemos dizer que Hauser não é considerado, de certa forma, humanizado, mas sim, domesticado, uma vez que seu caráter formou-se por meio de uma série de ensinamentos de uma sociedade que necessitava que ele estivesse ajustado em seus parâmetros de aceitação.

A leitura é indicada para todo bom leitor que deseja aprofundar seus conhecimentos acerca de história, psicologia, sociologia ou qualquer área à qual está obra se destina. A obra também pode ser uma forma de explorar o passado e compreender a real significação entre significante e significado e a produção do eu no campo social entre o real e o imaginário.

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