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[RESENHA #336] O mundo como eu vejo, de Leandro Karnal

quinta-feira, maio 02, 2019

/ by Vitor Lima

“O leitor é um bom julgador quando se alegra e quando se irrita. Ele existe como conceito e como comunicação real. Tenho quem me ame por princípio e, claro, desenvolvi os haters sistemáticos. A rigor, ambos me procuram e analisam. Um dos aprendizados da grande mídia é que a responsabilidade do autor sobre o texto é vaga. Solto ao ar, como pluma de cinco mil toques, desperta tudo ao sabor de um vento subjetivo. É um gesto de humildade do autor não querer dominar ou dirigir a hermenêutica do leitor. Ela pertence ao imponderável e ao subjetivo. Mais uma vez recorro ao meu estimado leitor e à minha querida leitora: discordem, concluam, concordem ou lamentem, mas sempre leiam e formem sua própria peça multifacetada da aventura do saber. A magia do conhecimento é maior do que todos nós.” - Leandro Karnal

KARNAL, Leandro. O mundo como eu vejo. São Paulo, SP: Contexto, 2019. 272pp
  
Tempo é vida. O maior assassino do tempo são as redes sociais. [(p.141)]

O mundo como vejo é uma síntese de toda a vivência de Karnal. Nesta obra poderemos notar que o muito de sua formação (profissional e pessoal) – autores, professores, livros e ensinamentos — são transmitidos nas entrelinhas. O primeiro capítulo desta obra, debruça-se sobre as questões líquidas do mundo contemporâneo, categoria esta, atribuída ao autor e filósofo polonês Zygmunt Bauman, ao qual, Karnal inspira-se profundamente, chegando até entrevista-lo no ano de 2009 no café filosófico — CPFL, Canal Cultura / Unicamp —. O livro é uma seleção de atribuições ao mundo atual em contraponto ao mundo de outros tempos, como aquela estranha sensação que tempos de que tudo isso já foi melhor outrora. Nota-se que Karnal possui uma formação – acadêmica e pessoal – que valoriza as relações sólidas, isso faz com que o autor critique a todo instante os relacionamentos líquidos; a evolução constante da comunicação virtual e ausência de laços e vínculos afetivos; a ausência de referência, estudo e busca pelo conhecimento em um mundo capilarizado e atomizado pelo conhecimento pronto oferecido pela internet; o radicalismo velado nos movimentos sociais; a ausência de interesse da classe jovem por clássicos, literatura, música e etc. O capítulo mais interessante desta, talvez, para mim, seja “a fé dos religiosos e dos ateus”. Aqui, Karnal irá apresentar uma ideia centrada na compreensão do ser, do eu, tirando Deus da equação, em outras palavras, o grande “x” da questão não é acreditar ou não em uma entidade divina, mas em acreditar no ser humano, e em suas ações. Esta crônica fala dos diálogos existentes entre religião e sociedade, não atribuindo a dependência autônoma de nossas ações à fé, mas reconhecendo a importância da fé em sociedade. Há um trecho muito interessante com relação ao suicídio e a fé, sendo este:

“O suicídio é um tabu forte em religiões monoteístas. Exclui até do cemitério o ser que, de uma vez, elimina sua existência. [...] como eu já disse em palestras, o único suicídio ético hoje é “matar-se de tanto trabalhar”. Um ato suicida me leva à condenação eterna e envergonha a família. Interessante, porém, como somos tolerantes com os suicídios lentos.”.

Karnal também aponta considerações com relação ao mundo digital, revelando não acreditar que não considera a era digital um declínio, pelo contrário, um avanço, mas, também aponta a necessidade de se saber comunicar não somente através de emoticons, como também a capacidade de leitura de grandes textos e filósofos e apresentar uma capacidade de compreensão igual – ou superior – as que detém de textos em seus smartphones. Os capítulos que se integram e se completam perfeitamente – abordam questões relacionadas à educação social, política, pública e priva, bem como criação, ética, história, Brasil, medo, pecado, dores e solidão. Enfim, podemos concluir que todas estas crônicas reunidas nos lembram algumas das várias palestras do professor Karnal, podendo citar: A solidão – o dilema do porco espinho; Crer ou não crer; Inteligência e caráter são coisas distintas; Direito a ser diferente, dentre outras.

Algumas citações interessantíssimas presentes nesta obra:

“O ato de construir uma estátua ou mandar retirá-la/destruí-la, revela uma guerra de memórias.” [(p.143)]

“O discurso e a prática dependem da exclusão. Como o Deus autoritário do Evangelho segundo Jesus Cristo de Saramargo, o diabo é essencial para o poder celeste. Sem o demônio (Ocidente), não se edifica o poder dos guerreiros fanáticos, no exato sentido grego da palavra fanático: aquele que se diz inspirado pelos Deuses.” [(p.184)]

“Há algo que não depende d opinião sobre amparar alguém que está perto da morte: Nossa responsabilidade. Se você se recusa, já cometeu suicídio moral.” [(p.203)]

“Se você guardar o nome de uma pessoa, repetir com clareza, olhar nos olhos, sorrir ao apertar a mão e manifestar-se genuinamente nela, é evidente que os laços estarão mais fortalecidos e a primeira impressão será mais positiva.” [(p.219)]

Certo de que esta leitura me edificou em diversos sentidos, sinto-me no direito de dizer que a clareza das ideias exposta nestas crônicas me remetem ao pensamento crítico acerca de meu cotidiano, meu íntimo, meus objetivos, projetos e de minha vida. Karnal não é um ser político extremista. Aqui não há pensamentos tendidos para a esquerda ou para direita, há apenas fruto de estudos, debates, conversas e muitas noites em claro. Este livro não dialoga só, ele conversa com o leitor, expõe ideias, clarifica sentimentos, momentos e desejos e nos convida a conhecer-nos, e claro, conhecer o mundo ao nosso redor. Afinal, o que irá formar a sua visão do mundo? Como você enxerga este mundo ou o mundo onde você acredita viver? Em quais ideias você pauta seus sentimentos e suas vontades? Um livro de cultura, de crônicas, de filosofia, um livro de ideias concretas. Ideal para amantes do gênero crônica, estudantes de filosofia, história, sociologia ou qualquer ser que deseja de uma forma ou de outra, aprofundar-se na temática proposta. 

O AUTOR
Leandro Karnal é professor, historiador, graduado em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e doutor pela Universidade de São Paulo (usp). Leciona há 30 anos, tendo passado por ensino fundamental, médio, escolas públicas e privadas, cursinhos pré-vestibulares, universidades variadas e hoje leciona na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Trabalha há muitos anos com capacitações para professores da rede pública e publicação de material didático e de apoio para os professores. Pela Contexto publicou como autor, coautor ou organizador Estados Unidos, História da cidadania, As religiões que o mundo esqueceu, O historiador e suas fontes, História na sala de aula, História dos Estados Unidos, Conversas com um jovem professor, O Brasil no Contexto - 1987 - 2017 e Diálogo de Culturas. Viaja bastante e observa professores e alunos em meios como comunidades indígenas no México, escolas da França, aulas no Norte da Índia, Vietnã e China. Sua meta de vida é ser lembrado como alguém que tentou ser um bom professor. Foto: Régis Filho.

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