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[RESENHA #356] O Segundo sexo, de Simone de Beauvoir

sexta-feira, junho 14, 2019

/ by Vitor Lima

O Segundo Sexo é um livro escrito por Simone de Beauvoir, publicado originalmente em 1949 e uma das obras mais celebradas e importantes para o movimento feminista. O pensamento de Beauvoir analisa a situação da mulher na sociedade.¹ Para que posamos compreender a totalidade dos pensamentos de Simone de Beuavoir, faz-se necessário compreender a linha filosófica que à qual pertence, sendo, o existencialismo. No existencialismo, o indivíduo se caracteriza por sua essência, ou existência. Kierkgaard, sustentava a ideia de que o indivíduo é o único responsável pelo significado existente em sua vida, tendo de vivê-la de forma sincera e apaixonada, mesmo com todos problemas contemporâneos que nos acometem: ansiedade, alienação, tédio, dentre outros. O existencialismo tornou-se popular nos anos após as guerras mundiais, como maneira de reafirmar a importância da liberdade e individualidade humana. Esta essência, também chamada de Verdade, à qual, segundo Platão, deveríamos buscar, tornou-se mais difusa com o advento do Cristianismo, seguindo a ideia de que todas as coisas tiveram um criador, dando uma essência própria a todas as coisas,  Mas é claro que este ideal de essência torna-se cada vez mais complicado de se sustentar, uma vez que vivemos em um mundo de constantes descobertas, sejam elas políticas, econômicas ou sociais. O ideal de essência torna-se cada vez mais complicado de se ser alcançado, afinal, já não existe mais a ideia advinda do cristianismo de que toda essência criada pelo criador é imutável, afina, segundo Darwin, não existe uma essência para nada, pois todas as coisas estão em um constante devir (transformação). É a partir deste ponto que poderemos compreender o pensamento de Jean Paul Sartre: A existência precede a essência. Ou seja, segundo Sartre, as coisas estão, elas não são. Tudo o que há agora passa por uma transformação contínua e sua essência é passageira, cabendo a nós dar sentido à ela. 

Antes de adentrarmos esta obra, fiquemos com esta belíssima citação de Beuvoir, para que possamos finalmente compreender a grandiosidade e importância de sua contribuição filosófica:

“Eles [Rosa Luxemburgo, Marie Curie] demonstram com brilhantismo que não é a inferioridade das mulheres que determinou sua insignificância histórica: é sua insignificância histórica que as tornou inferiores.”


FATOS E MITOS

Reconhecer um ser humano na mulher não é empobrecer a experiência do homem: esta nada perderia de sua diversidade, de sua riqueza, de sua intensidade, se se assumisse em sua intersubjetividade; recusar os mitos não é destruir toda relação dramática entre os sexos, não é negar as significações que se revelam autenticamente ao homem através da realidade feminina; não é suprimir a poesia, o amor, a aventura, a felicidade, o sonho: é somente pedir que as condutas, os sentimentos, as paixões assentem na verdade”

Fatos e mitos é a primeira parte do manuscrito de Simone de Beauvoir. Aqui, a autora trabalhará arduamente em cima da desmistificação dos pressupostos que dizem respeito a vivência da mulher.  Aqui, Beauvoir trabalhará na explicação do porquê as “essências existentes” da mulher na sociedade não explicam como se dá a subordinação da mulher em relação aos homens.

A EXPERIÊNCIA VIVIDA

“Uma ética verdadeiramente socialista, ou seja, buscar a justiça sem suprimir a liberdade, que impõe ônus aos indivíduos, mas sem abolir a individualidade, ficará muito embaraçada com os problemas impostos pela condição das mulheres.”

Segunda parte do segundo sexo. Se na primeira parte, Beauvoir busca desmistificar a vivência da mulher no social, na segunda parte, ela coloca em prática como realmente essa existência e essência funcionam. Como que a mulher constrói a sua existência? Citando diversos exemplos de outras mulheres e suas construções e caracterizações, Beuvoir compreende de forma abrangente a real explicação do por que estas mulheres foram se construindo da forma como se construíram e não de outra forma. 

“Há um princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem, e há um princípio mau que criou o caos, as trevas e a mulher.” (Aristóteles)

“Tudo o que os homens escreveram até hoje sobre as mulheres deve ser suspeito, pois eles sao, a um só tempo, juiz e parte.” (Fançois Poullain de La Barre)

A partir dos pensamentos acima, a autor inicia uma investigação através de uma série de outros pensamentos, buscando a compreensão por meio de questões. Aqui, Beuvoir critica a Biologia, o ponto de vista psicanalítico e o ponto de vista materialista. Ao questionar a biologia, a autora não nega que exista uma natureza feminina que se difere da natureza masculina, porém, ela também não acredita que essa diferença seja o suficiente para explicar os motivos pelos quais a mulher é sempre colocada em ponto de subordinação com relação ao homem.  Já o ponto de vista psicanalítico de Freud e Adler é confrontado, afinal, são pensamentos masculinos acerca da essência da mulher que dependeram de um contexto histórico para se solidificarem. Em outras palavras, se existe, de fato, um complexo de inferioridade feminino em relação aos homens, é porque a mulher está inserida dentro de um contexto social que valoriza muito mais a virilidade masculina, do que a virilidade feminina. Nesta parte, a autora também busca compreender o que dá à mulher o status de feminina levantando diversas questões. Afinal, o que dá a uma mulher o status de mulher? Seriam suas vestes, unhas pintadas ou uma essência pré-existente platônica da essência feminina? Ou esta essência estaria presa à um conceito biológico de que a feminilidade está ligada diretamente as questões biológicas? Será que basta pintar o cabelo, unhas e usar saia para ser mulher? E partindo de questões como estas que Beauvoir sintetiza toda a sua ideia em uma única frase, sendo ela: Não se nasce mulher, torna-se. 

Enfim, o livro é incrivelmente rico e merece ser lido, estudado e folheado dezenas de vezes, até que suas palavras tornem-se efetivas em nosso eu. Como estudante de Ciências Sociais, é interessante ler Beauvoir. A teoria da autora acerca da formação da figura feminina no campo social, a construção da identidade feminina, o lugar da mulher na sociedade segunda a concepção e visão histórica, a mulher como objeto e não somo sujeito, dentre outros diversos temas abordados pela autora, tornam a experiência de leitura extremamente densa e rica. É necessário uma capacidade intelectual que exceda as linhas desta obra. Em outras palavras, para que se compreenda de fato as ideias de Beauvoir, faz-se necessário ler as diversas contribuições citadas pela autora ao longo de sua narrativa. A compreensão das correntes filosóficas e das inúmeras contribuições de outras correntes para a compreensão da teoria e formação da mulher como ser no campo social é indispensável. Este é um livro que merece destaque na prateleira, não por ser um livro que estuda àquilo o que buscamos compreender, mas por ser um livro que excede as expectativas do leitor com relação as teorias estudadas e apontadas por Simone de Beauvoir. Uma leitura realmente intrigante.

Algumas citações presentes nesta obra:

“Mas, de qualquer maneira, criar, cuidar não são atividades, são funções naturais; nenhum projeto está envolvido; é por isso que a mulher não encontra aí a razão de uma afirmação arrogante de sua existência; ela passa seu destino biológico passivamente.”

 “A ideologia cristã não contribuiu muito para a opressão das mulheres.”

“A razão subjacente às mulheres história dedicada em trabalho doméstico e proibidos de tomar parte na construção do mundo é a sua subserviência à função geradora.”

“Mas, na verdade, as vozes femininas silenciam onde a ação concreta começa; eles foram capazes de provocar guerras, não sugerir as táticas de uma batalha; eles têm orientado a política apenas na medida em que a política é reduzida à intriga: os comandos reais do mundo nunca estiveram nas mãos das mulheres; eles não agiram nas técnicas ou na economia, não fizeram ou derrotaram estados, não descobriram mundos. É através deles que certos eventos foram desencadeados: mas eram pretextos muito mais que agentes.”

“O privilégio econômico mantido pelos homens, seu valor social, o prestígio do casamento, a utilidade do apoio masculino, todos comprometem as mulheres a desejarem agradar aos homens. Eles ainda estão em uma situação geral de vassalagem. Segue-se que a mulher conhece e escolhe a si mesma não como ela existe para si mesma, mas como o homem a define.”

“As costuras, os padrões são muitas vezes apliquées para cortar o corpo feminino tem transcendência: os chineses com os pés enfaixados mal consegue andar, garras envernizado de Hollywood estrela privar suas mãos, saltos altos, espartilhos, as cestas, as vertugadinas, as crinolinas tinham menos intenção de acentuar a composição do corpo feminino do que aumentar sua impotência.”

 “O homem conseguiu escravizar a mulher: mas a esse ponto ele a despojou do que a tornava desejável.”

“Ninguém é mais arrogante em relação às mulheres, agressivo ou desdenhoso, do que um homem preocupado com sua virilidade.”

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¹Trecho da abertura da introdução retirado de Wikipédia.org

A AUTORA

Simone de Beauvoir foi uma autora e filósofa francesa. Ela escreveu romances, monografias sobre filosofia, questões políticas e sociais, ensaios, biografias e uma autobiografia. Ela é agora mais conhecida por seus romances metafísicos, incluindo Ela veio a ficar e os mandarins, e por seu tratado de 1949 sobre o segundo sexo , uma análise detalhada da opressão das mulheres e um trato fundamental do feminismo contemporâneo.

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